Quando o cardeal tornou com este recado, foi el-rei Dom Pedro mui sanhudo, dizendo que tudo eram razões, pelo estorvar da armada que fazer queria, e porém disse ao cardeal que lhe perdoasse, cá não entendia de falar mais n'isto, mas continuar sua guerra o mais que pudesse. Ao cardeal pezou muito de tal resposta, e não podendo mais fazer, cessou de falar em ello.
El-rei Dom Pedro mui sanhudo, por tomar logo alguma vingança, passou por sentença contra o infante Dom Fernando, seu primo, e contra o conde Dom Henrique, e outros cavalleiros muitos, por a qual razão os perdeu então de todo ponto, e o peior d'isto: mandou matar a rainha Dona Leonor, sua tia, madre do dito infante Dom Fernando, e Dona Joanna de Lara, mulher de Dom Tello, seu irmão; nas quaes cousas cumpriu sua vontade, e não fez muito de seu serviço. E depois que mandou fazer estas e outras cousas, pôz seus fronteiros contra Aragão, e partiu de Almaçan, e veiu-se a Sevilha.
*CAPITULO XXIV*
Como el-rei de Castella enviou pedir ajuda de galés a el-rei de Portugal, e como partiu com sua frota por fazer guerra a Aragão.
Sendo el-rei de Castella em tal desaccordo com el-rei de Aragão, e tendo vontade de fazer grande armada contra seu reino em este anno de mil e trezentos e noventa e sete, pero assaz de frota tivesse, assim de naus como de galés, não foi d'isto ainda contente, e mandou dizer a el-rei de Portugal, seu tio, por João Fernandez de Hinestrosa, seu camareiro-mór, que lhe rogava que as dez galés, que lhe promettidas havia de dar em ajuda contra Aragão, que as mandasse fazer prestes, cá lhe eram muito cumpridoras.
A el-rei prouve muito d'ello, e mandou logo armar de boas gentes dez galés e uma galeota, e o seu almirante Misser Lançarote em ellas.
El-rei como soube que as dez galés de Portugal eram prestes, partiu de Sevilha no mez de abril meiado, com toda sua armada junta, a qual eram oitenta naus de castello d'avante, e vinte e oito galés suas, e duas galeotas e quatro lenhos, e mais tres galés d'el-rei de Granada, que lhe enviara em ajuda a seu requerimento.
E esteve el-rei em Aljazira quinze dias, aguardando pelas galés de Portugal, e quando viu que não vinham, partiu para Cartagena, e alli esperou todas suas naus; e foi sobre Guadamar, e tomou a villa e o castello, e d'alli foi pela costa, combatendo alguns logares que tomar não poude, e chegou ao rio de Ebro, a cerca de Tortosa, cidade de Aragão, e alli chegaram as dez galés de Portugal, que lhe el-rei seu tio enviava em ajuda. E prouve muito a el-rei com ellas, e a todos os da frota, e tinha el-rei então, por todas, quarenta e uma galés, afóra as fustas pequenas.
E partiu el-rei d'alli com toda armada e chegou a Barcelona, uma vespera de paschoa, onde estava el-rei de Aragão; e achou doze galés armadas, e não as poude tomar, cá se puzeram todas a travez, junto com a cidade, e d'alli as defendiam com muita bésteria e trons.
E esteve el-rei ante Barcelona, com toda sua frota, tres dias, e d'alli se foi á ilha de Iviça, e cercou uma boa villa que ha assim nome; e tendo-a afincada com engenhos e bastidas, soube como el-rei de Aragão tinha armadas quarenta galés com que estava na ilha de Mayorca, e queria pelejar com elle.