E partiu el-rei uma sexta-feira para Najara, onde o conde estava, e elle era fóra da villa com oitocentos de cavallo e dois mil homens de pé. E mandara pôr o conde, ante a villa, n'um outeiro, uma tenda e um pendão; e os d'el-rei que iam diante pelejaram com o conde e venceram-no, e tomaram a tenda e o pendão, e morreram ahi parte dos seus. E partiu-se el-rei, á tarde, para Acofra, onde tinha seu arrayal.
E em outro dia, vindo para combater Najára, onde ficara o conde, achou no caminho um escudeiro que vinha fazendo pranto por um seu tio que lhe mataram, e el-rei houve-o por forte signal e não quiz lá ir, e tornou-se para São Domingos da Calçada.
E d'ahi a dois dias lhe disseram que era partido o conde para Aragão, levando caminho de Navarra, e quizera-o el-rei seguir, e o cardeal lhe conselhou que o não fizesse, cá assaz abundava deixarem-lhe suas villas e irem-se. E el-rei mandou aos seus que estivessem quedos, e d'aquelle logar ordenou seus fronteiros para os logares onde cumpria, e veiu-se para Sevilha.
Elle alli soube como um cavalleiro de Aragão, que chamavam Mateo Mercedi, andava no mar com quatro galés fazendo damno a castelhanos e a portuguezes, e fez armar cinco galés, e mandou n'ellas um seu bésteiro, que diziam Zorzo, natural de Tartaria, que fosse em busca d'aquelle corsario; e foi assim que o achou na costa da Berberia, onde pelejou com elle, e desbaratou-o e trouxe as galés e elle preso a Sevilha: e el-rei mandou-o matar, e muitos dos que vinham com elle.
Mas ora deixemos el-rei em Sevilha, matando e prendendo quaes vos depois contaremos, e digamos algumas outras cousas que este anno aconteceram em Portugal, que nos parece que é bem que saibaes.
*CAPITULO XXVII*
Como el-rei Dom Pedro de Portugal disse por Dona Ignez que fora sua mulher recebida, e da maneira que em ello teve.
Já tendes ouvido compridamente, onde falamos da morte de D. Ignez, a razão por que a el-rei Dom Affonso matou, e o grande desvairo que entre elle e este rei Dom Pedro, sendo então infante, houve por este aso. Ora, assim é, que emquanto Dona Ignez foi viva, nem depois da morte d'ella emquanto el-rei seu padre viveu, nem depois que elle reinou até este presente tempo, nunca el-rei Dom Pedro a nomeou por sua mulher; antes dizem que muitas vezes lhe enviava el-rei Dom Affonso perguntar se a recebera, e honral-a-ia como sua mulher, e elle respondia sempre que a não recebera, nem o era.
E pousando el-rei, n'esta sesão, no logar de Cantanhede, no mez de junho, havendo já uns quatro annos que reinava, tendo ordenado de a publicar por mulher, estando ante elle Dom João Affonso conde de Barcellos, seu mordomo-mór, e Vasco Martins de Sousa, seu chanceller, e mestre Affonso das leis e João Esteves, privados, e Martim Vasques, senhor de Goes, e Gonçalo Mendes de Vasconcellos, e João Mendes, seu irmão, e Alvaro Pereira, e Gonçalo Pereira, e Diego Gomes, e Vasco Gomes de Abreu, e outros muitos que dizer não curamos, fez el-rei chamar um tabellião, e presentes todos, jurou aos Evangelhos, por elle corporalmente tangidos, que sendo elle infante, vivendo ainda el-rei seu padre, que estando elle em Bragança, podia haver uns sete annos, pouco mais ou menos, não se accordando do dia e mez, que elle recebera por sua mulher lidima, por palavras de presente, como manda a santa igreja, Dona Ignez de Castro, filha que foi de D. Pedro Fernandez de Castro, e que essa Dona Ignez recebera a elle por seu marido, por semelhaveis palavras, e que depois do dito recebimento a tivera sempre por sua mulher, até ao tempo de sua morte, vivendo ambos de commum, e fazendo-se maridança qual deviam.
E disse então el-rei Dom Pedro, que porquanto este recebimento não fôra exemplado nem claramente sabido a todos os de seu senhorio, em vida do dito seu padre, por temor e receio que d'elle havia, que porém elle, por descarregar sua consciencia e dizer verdade, e não ser duvida a alguns, que do dito recebimento tinham não boa suspeita se fôra assim ou não: que elle dava de si fé e testemunho de verdade, que assim se passara de feito como dito havia, e mandou áquelle tabellião, que presente estava, que désse d'ello instrumentos a quaesquer pessoas que lh'os requeressem. E por então não se fez mais.