El-rei de Castella respondeu a isto dizendo, que assim era como elles diziam, que elle se sentia por mui agravado d'elle, pelo não receber em seu reino e lhe dar acolhimento como era razão, sendo seu tio, irmão de sua madre, e que mór melancolia havia não dar gasalhado ás infantes suas filhas, que da aspereza que contra elle mostrara, porque se as el-rei seu tio tomara e lh'as tivera em sua terra guardadas, com alguns haveres que elle levava, onde era certo que estariam seguras, que elle ficara desempachado d'ellas, e então tornara a recobrar seu reino. Dizendo que muitos se alçaram contra elle, que o não fizeram se o viram presente, mas pelo empacho que tinha, das filhas, que lhe conviera de fugir com ellas, não tendo logar seguro onde as deixasse; porque áquelle tempo que as deixar quizera em algum castello de sua terra, em nenhum havia tanta fiusa por que ousasse de o fazer.

Sobre isto correram tantas palavras entre el-rei Dom Pedro e os embaixadores, até que pediram por mercê, ao principe, que fizesse pergunta a el-rei, se áquelle tempo que elle escrevera a seu tio que era em seu reino, se lhe fizera saber por sua carta que lhe queria deixar suas filhas e o thesouro que comsigo trazia, segundo elle arrazoava presente elle. E o principe lh'o perguntou então, e elle disse que não ementara nenhuma cousa das filhas, nem do haver que levava comsigo.

—Pois, disse o principe, nem vosso tio não era adivinho do que vós tinheis na vontade.

Então fizeram recontamento ao principe das ajudas que de Portugal recebera, assim por mar como por terra, e como todos os senhores e fidalgos, que allá foram, vieram d'elle e dos seus mui mal contentes e escandalisados, e que esta fôra uma das razões por que o el-rei seu tio não quizera ter em sua terra, por se não levantarem, entre uns e os outros, bandos, e arruidos, e mortes.

Arrazoaram tanto até que se enfadaram, e o principe, conhecendo de razão, disse que o não havia por culpado como antes; e na parte da nau e haveres, que lhe el-rei de Portugal enviava dizer que em Inglaterra eram retidos contra razão, que elle os faria logo desembargar, como seu amigo que era e queria ser. E assim o fez de feito, que em breves dias foram despachados.

*CAPITULO XLIII*

Como Dom João, filho de el-rei Dom Pedro de Portugal, foi feito mestre de Aviz.

Vós ouvistes, no primeiro capitulo d'esta historia, como depois da morte de Dona Ignez, ei-rei sendo infante, nunca mais quiz casar, nem depois que reinou quiz receber mulher, mas houve um filho de uma dona, a que chamaram Dom João. D'este moço deu el-rei cargo a Dom Nuno Freire, mestre de Christus, que o criava e tinha em seu poder, e que criando-o elle assim, sendo em idade até sete annos, veiu-se a finar o mestre de Aviz, Dom Martim do Avelal.

O mestre de Christus, como isto soube, foi-se logo a el-rei Dom Pedro, que então pousava na Chamusca, e pediu-lhe aquelle mestrado para o dito seu filho, que levava em sua companha, e el-rei foi mui ledo do requerimento, e muito mais ledo de lh'o outorgar.

Então tomou o moço o mestre nos braços, e tendo-o em elles, lhe cingiu el-rei a espada e o armou cavalleiro, e beijou-o na boca, lançando-lhe a benção, dizendo que Deus o accrescentasse de bem em melhor, e lhe desse tanta honra em feitos de cavallaria, como déra a seus avós: a qual benção foi em elle bem cumprida, como adiante ouvireis.