Foi muito mantenedor de suas leis e grande executor das sentenças julgadas, e trabalhava-se quanto, podia das gentes não serem gastadas por azo de demandas e prolongados pleitos.

E se a Escriptura affirma que, por o rei não fazer justiça, vem as tempestades e tribulações sobre o povo, não se póde assim dizer d'este, cá não achamos, em quanto reinou, que a nenhum perdoasse morte de alguma pessoa, nem que a merecesse por outra guisa, nem lh'a mudasse em tal pena por que pudesse escapar a vida.

A toda gente era galardoador dos serviços que lhe fizessem, e não sómente dos que faziam a elle, mas dos que haviam feitos a seu padre, e nunca colheu a nenhum cousa que lhe seu padre desse, mas mantinha-a e accrescentava n'ella.

Este rei não quiz casar: depois da morte de Dona Ignez, em sendo infante, nem depois que reinou, lhe prove receber mulher; mas houve amigas com que dormiu, e de nenhuma houve filhos, salvo de uma dona, natural de Galliza, que chamaram Dona Thereza, que pariu um filho que houve nome Dom João, que foi mestre de Aviz em Portugal e depois rei, como adiante ouvireis, o qual nasceu em Lisboa onze dias do mez de abril, ás tres horas depois do meio dia, no primeiro anno do seu reinado. E mandou o el-rei criar, em quanto foi pequeno, a Lourenço Martins da Praça, um dos honrados cidadãos d'essa cidade, que morava junto com a igreja cathedral onde chamam a praça dos Canos, e depois o deu, que o criasse, a Dom Nuno Freire de Andrade, mestre da Cavallaria da ordem de Christo.

*CAPITULO II*

Como el rei de Castella mandou pelo corpo da rainha Dona Maria, sua madre, e da carta que enviou a el-rei de Portugal, seu tio.

N'esta sezão que el rei Dom Pedro começou de reinar, ordenou el-rei de Castella de enviar pelo corpo da rainha Dona Maria, sua madre, que se finara em Portugal vivendo ainda el-rei Dom Affonso, seu padre, como em alguns logares d'este livro faz menção; e fez saber por sua carta a el-rei Dom Pedro, seu tio, como havia vontade de a trasladar, para a pôr em Sevilha, na capella dos reis, com el-rei Dom Affonso, seu padre; e ordenou, para irem com o corpo da rainha, o arcebispo de Sevilha e outros prelados de seu reino, e dês-ahi mandou diante, para correger todas as cousas que cumpriam para o corpo ir honradamente, Gomes Peres, seu dispenseiro mór, ao qual o corpo havia de ser entregue, para ordenar tudo o que mister fazia á sua trasladacão, para quando os prelados viessem, que achassem tudo prestes e se partissem logo.

A el-rei Dom Pedro prouve d'isto muito, e escreveu-lhe que mandasse por elle, quando por bem tivesse: e el-rei de Castella enviou logo aquelle seu dispenseiro, e foi-lhe entregue o corpo, na cidade de Evora onde jazia, para ordenar seus corregimentos, segundo a ordenança que lhe era dada. E quando o arcebispo, e os outros prelados e gentes vieram pelo corpo da rainha, trouxeram a el-rei Dom Pedro uma carta de el-rei de Castella, seu sobrinho, que dizia n'esta guisa.

«Rei, tio. Nós, el-rei de Castella e de Leão, vos enviamos muito saudar como aquelle que muito prezamos e para que queriamos tanta vida e saude, com honra, como para nós mesmo.

«Rei, fazemos-vos saber que vimos uma carta de crença que nos enviastes por Martim Vasques e Gonçalo Annes de Beja, vossos vassalos, e disseram-nos de vossa parte a crença que lhes mandastes.