Sem curiosidade voltou a cabeça, estava Albano ao pé d’elle devorando a estatua, maravilhado, attonito, imbecil.

—Ah, és tu, disse Arthur que se levantou n’um pulo, sem mostras d’alegria comtudo, vendo Albano correcto n’um vestuario de gentleman. Tens tabaco, por acaso?—Albano desviou a vista um momento, para procurar charutos nas algibeiras; então Arthur com um martello, fez a estatua em pedaços[1].

[1] São estes restos da mais assombrosa esculptura que tem visto o mundo, que soldados por agulhas de ferro, ornam hoje o tumulo de Judith, e mais todos os esboços, meias estatuas, fragmentos e ensaios, que por morte d’Arthur foram achados no atelier.


A INDIGESTÃO

N’um pequenino paiz do sol, batido dos ventos, riscado de brancas serranias e coberto de laranjeiras, celebridades e patuscas historias, governava um bom e gorducho rei, Menelau de nome, de estatura meã e ventre espherico, cheio de benevolas ociosidades para o seu povo, e senhor d’umas brancas mãos de prelado, que como actividade só sabiam deixar cahir por entre os dedos, as bellas moedas dos erarios publicos. Vinha el-rei Menelau d’uma ascendencia mui nobre e antiga, que nos brazões ostentava symbolos de todas as nobrezas em campos de mil côres, e nas suas veias conseguira fazer circular um precioso licôr feito com sangue de todas as dynastias da terra, desde as mais antigas até ás mais modernas. Este licôr branco como leite, tão nobre conseguira estillar-se pelas edades fóra, tinha uma composição extraordinaria de anemia, infecundidade, preguiça, tristeza e doçura. Por sua côr separava o rei dos fidalgos que o tinham azul aguado, e do povo que sempre o derramara escarlate, por obedecer a seu senhor. A côrte de que o rei se rodeava, era confeccionada com os mais puros nobres do reino, nomes historicos ouvidos em todas as partes do mundo, primos e credores uns dos outros, gente correcta de modos, desdenhosa pelas camadas ultimas, pouco atribulada em labores mentaes, e captando as reaes sympathias por um ramo qualquer d’instincto recreativo.

Havia por exemplo, os que sabiam perder ao bilhar com Sua Magestade encantada de lhes ter ganho sem esforço, os que traziam de fóra bons ditos e finas partidas galantes, os que atiravam aos pombos, os que walsavam, os que subtrahiam brevas ás caixas sem arrombamento do charão onde o rei usava guardal-os, os que aguarellavam picantemente caricaturas dos inimigos politicos de Sua Magestade, os que lhe elogiavam os dotes e convenciam de grandeza, os que lhe escreviam discursos, compravam cavallos, dictavam o estylo das equipagens, faziam suave a vida vendando-lhe os descontentamentos da massa e truncando-lhe a leitura dos jornaes, quem por elle mandava, comia, tinha ideias, effervescencias, pratos de trufas em molhos sabios, comichões, contas nos estofadores e lojas de bric-à-brac, alegrias, clarões de vinho generoso, e babas gulosas nas bellas espaduas alabastrinas.

A bondade triste de Menelau permittia em volta nas camarilhas, desleixos de attitudes e palavras que ao povo, a distancia, se afiguravam rotulos das sardanapalicas do alcaçar, onde as cortezãs bebessem por calices sagrados, e pallidos arcebispos de mitra á zamparina, fossem aventurando can-cans fadistas com lindas açafatas unctuosas de maneiras e causticantes de pedraria. O monarcha no entanto estiolava, alquebrado de conviver na turba-multa que ia quotidianamente pelos salões do paço, e nostalgico talvez dos aconchegos de familia pobre que não tinha. Não era para solavancos de politica cynica, o pobre rei de sangue dessorado, achaques parranas, e absolutas tendencias caseiras para um dominó de compadres. E a cada vez que via em lucta os partidos, disputando-se opiparas prebendas, negociando crachás e titulos, anichando os seus sacristas e ganymedes, vomitando infamias pela guela da imprensa, dissolvendo os costumes e preterindo os meritos, o gorducho Menelau enterrando a corôa de oiro até aos olhos e roendo na ponteira do sceptro, punha-se acabrunhado a gritar que não resistia, davam com elle de pantana, e era seu real desejo abdicar para se ir ás alcalinas de Cauterets. Embalde n’esses terriveis momentos de cobardia, eram chamados ao paço todos os chronistas e archeologos do reino, a citarem a Menelau uma quantidade d’expedientes e ditos de velhos reis seus antepassados, em analogos lances de governação tormentosa. E era muito para vêr, como tão veneraveis e poentos sabios se esfarinhavam em diligencias, para do pichel da historia vasarem no branco coração do rei, litros e litros do heroismo das primeiras dynastias.