Em espiralitas claras, cortados muito curtos, os cabellos faziam-lhe capoul á banda, sobre a testa baixa, d’onde o nariz serio e sem proeminencias, um pouco obliquo de azas, nascia dôcemente, como n’uma mascara de sphinge. Em volta, no drama errante das sombras, as arestas tocavam-se ás vezes de uma luz, filetes tenues de phosphorencia rolando no dorso da onda, reticulos argenteos espelhados das estrellas, gottas perola vogando como algas de luz nos palpos da maré, alguma coisa de fogos-fatuos ou pyrilampos d’agua, esvoaçando n’uma vida abrazada e inquieta, de vertice em vertice e foco em foco, para subtilmente bordarem como inconstantes melodias, por todo esse claro-escuro. No entanto o ceu tinha formigueiros de estrellas, retalhados com os regatos de tinta das nuvens lançadas por camadinhas obliquas. E a cada passo ella dizia uma palavra guttural, vestindo n’essa estranha musica a fugitiva ideia que lhe pipiára na mente. O estranho dialecto, sifflante, torvelinhando, cheio de breves, do aspirados em ah, e eth, vibrava na voz de Lia com expressão metallica, fina, viril, cheia de paixão. Era a lingua em que ella me insultava nos seus periodos de orgulho judeu, de ardencia, de desejo, de embriaguez e de amor. Cahida do meu pescoço pelos seus braços em collar, quasi núa e cingida a mim, os pés rojando, crespos cabellos em nimbo na pureza impeccavel da testa, narinas debatendo-se d’ancia, e a bocca em momo escaldando n’esse terrivel escarlate dos sangues orientaes, muitas manhãs eu lhe ouvira palavras d’aquellas, primeiro ciciando divinos segredos, e a cabecita escondia-se na minha, cahindo-me no hombro desnudado. Depois a respiração subia n’um começo de cyclone, estrangulava-lhe a voz, e o seu dizer era offegante e frenetico. E d’alli para cima, que coleras fuzilavam por ella! Cada molecula da sua pelle era um centro de sensação tumescido em fluidos de amor e rebentando por descargas de gozo, sob a fecundação de cada beijo.

Essa radiação de mulher adolescente transfigurada ao calor de um homem, ganhava de subito energias do deserto, reminiscencias de estado barbaro, sensualidades tigrinas, cujo ardor a agua do baptismo parece ter resfriado nas christãs. E como faisca espadanando no embate violento das fragas, aquella linguagem mesclada, indefinivel, obscena talvez, e encantadora, fazia-me lavas no sangue como um ultimo requinte de voluptuosidade!

E a guiga vogando manso, como n’um pedaço de lenda rhenana, sem ruido, tendo a mulher de negro ao leme...

Evitavamos os navios ancorados, como conspiradores em perigo; uma vez ou outra porém, tinhamos de contornar alguns d’esses cetaceos immoveis, que affrontados pela prôa pareciam crescer desmedidamente nos ares, multiplicando a confusão de vergas, escadas e cordagens, e accendendo pelos oculos das camaras, fulgores sanguinolentos de olhos estoirados, sem movimento e sem palpebra.

—E a pesca? disse Lia, em voz baixa. Aproximámo-nos da outra margem. Cahiam de cima as arestas dos montes, fazendo trevas na sombra. A maré descia vagarosamente, embalando no dorso das ondas alastramentos de algas verde-negras. Accendi á pôpa um archote, e fizemos alto. Em volta, a chamma abria uma photosphera geometrica, raios que se quebravam na agua, torvelinhando em rêdes de sangue, e na penumbra da noite se amorteciam, á medida que se alongavam. Immovel no seu banco, Lia tinha a cabeça distrahida, envolta n’um froco atado por baixo da barba, a narina quieta, e uma serenidade de face a cada passo desmentida pela caustica dos seus olhos de hebrêa.

—E a pesca?—foi em toda a noite o unico portuguez que disse, n’um fluido de abstracção monotona, sem sentido e sem alma, com voz que era antes um echo. Nem um instante porém, esses olhos me largaram, spasmos n’um deslumbramento de luz, a principio tranquilla e dôce, depois tenaz, depois feroz, e inquietadora por fim. Não sei explicar, nem ha coisa alguma que o explique, por que vibrações infinitesimas iam passando as fibrilhas d’essa iris, que dentro de mim illustrava com illuminuras divinas todo o fulvo poema de uma paixão selvatica. Parecia-me, na incoherencia em que oscillava, o seu amor uma serpente que se enroscava frenetica a mim, inoculando peçonhas no meu sangue e loucura no meu cerebro, invertendo a polarisação dos meus instinctos e contaminando a nobreza dos meus ideaes, tornando-me feroz, grosseiro e cobarde, e deixando pela algidez da minha vida, um rastro de maldição e estupor! E por mais esforços que fizesse, a contemplação d’esse typo de Herodiade, embaraçava-me, cançava-me, fundia-me! Em pleno rio e longe do bulicio, a sua figura transfigurava-se de immovel, e através d’ella eu via irem desfilando em procissão phantastica, tunicas de linho ao vento, cabellos ornados de sequins, e olhos de terrivel belleza, todos os estranhos typos da judia lendaria, desde Maria, a suprema innocencia, até Thamar, a suprema culpa!

—E a pesca? hão de os senhores perguntar. Bom Deus, nem me recordo!... Nem sei inda agora explicar, porque o archote se apagou sem nós sentirmos, e o primeiro sol nos veio surprehender abraçados no fundo da guiga!

Oh! a deliciosa pescaria!...