Na Casa Branca, quando o trem parou, despertei ao ruido da portinhola que se abria, e entrou um homem com uma creança de lucto.

—Tenha o senhor boas noites! disse elle, erguendo o chapeirão desabado. E desembaraçando-se da capa hespanhola, bandada de roxo, com alamares de corrente, poz-se a empurrar para baixo do banco a mala de tapete que trouxera. Gordo de mais talvez, barriga importante onde um grilhão de oiro escorria, ar compostamente sereno, barba toda. Depois de se sentar resfolegou do esforço que fizera a empurrar a mala, ergueu a gola do gabão ao pequenito, dizendo-lhe se tinha frio, se tinha somno, ou se tinha fome—não me lembro já. A creança estava para um canto, e de dentro do gabão pardo, os seus grandes olhos tristes erravam curiosamente por mim, pensativos e humidos.

O homem correu-lhe a enorme mão pela carita fina, com uma ternura bondosa, e voltado para mim sorria-se, como a pedir desculpa de ser tão expansivo.

—É seu filho, hein? disse eu.

—Saberá que sim, tornou elle.

—Filho unico, talvez?

—Não tenho mais, infelizmente.

—É novito ainda.

—A fazer oito, pelo S. Miguel.

—Então padece?