—V. ex.a é então muito orgulhosa, notou velho Zarco despeitado d'aquelle tom.

—Crê isso? disse a viuva abrindo o grande leque d'oiro e plumas, que reluzia n'uma polvilhação de pequeninas pedras.—E de repente, n'um accesso de voz intimativo: Sabe, meu cunhado, que seu irmão era homem para o ter morto, se acaso tem vindo a saber... Porque francamente, disse ella com os dentes cerrados, rigida e faiscante nos seus damascos negros, francamente, é desprezivel, o senhor! Tenho ainda nos pulsos signaes das suas unhas. Adoro o Carlinhos, creia—eis porque ás vezes me aterro da mulher que elle escolheu. Meu Deus, se essa creaturinha sahir ao pae!

Os dentes do outro rangeram—porque não casou então comigo? disse elle com frenesis na raiz dos cabellos.

A viuva riu-lhe na cara.

—Eu? Eu? Ora, meu cunhado!

Fez dois passos na alcatifa, quebrando n'uma crispadura electrica e larga, a enorme cauda applicada de rendas antigas, ao tempo que os dedos de Zarco rasgavam convulsivamente a luva descalça de rompante. Ambos trahiam colera nos zig-zagues que faziam marchando. Os olhos ainda magnificos da viuva procuravam o da Torre, phosphorentes d'ameaça. E o velho, como quem não acha outro caminho para fugir:

—Emfim, desmancha-se este casamento, se quer.

—Não, já agora, elles desgraçadamente adoram-se, Carlinhos mostrou-me as cartas, amor de muitos annos, inda eram pequeninos. Deus sabe se o senhor mesmo approximou...—E subia-lhe a voz em graves dramaticos, com vibrações de metal.—Mas, meu cunhado, acautele-se, acautele-se! Sua filha vai comigo, voltal-a-hei contra o senhor.

—Oh, disse elle, experimente.

—Pois veremos.