—Inda assim não entalasse o rabo, figurona!
Mas depois de longas conjecturas, recapitulando, toda a gente acabava por dizer que andava ali o quer que fosse. Olá se andava!
No gabinete do parocho tinham posto uma grande mesa, e em roda bancos negros da confraria das Almas, para os convidados se assentarem. Era uma casa verdenta de paredes, com fendas ao través na abobada, pintada de frescos mais que barbarengos; e por um buraco de cima, passava a corda da sineta, que desde que se rachára o sino, servia para chamar á missa a freguezia. Ao fundo, pezava um grande armario de carvalho negro com espelhos de metal que verdejavam; e paineis de santos esburacados á navalha, cahiam aqui e além, emmoldurados em talhas carcomidas. Uma luz de cava vinha de cima, por uma janella sem portas, onde se cruzavam varões de ferro. Como a casa era estreita, apenas foram á leitura do contracto, os intimos amigos ou personagens de pezo. E o tabelião Mathias homemzarrão com uma cabecinha humoristica de japonico, estimavel e estupido, principiou com a sua voz em falsete nos fins de cada periodo, a ler artigo por artigo as escripturas, circumvagando a cada clausula os seus olhitos por cima d'umas olheiras paposas, onde as bexigas tinham picado covinhas de sombra.
«...e mais dou a minha filha Dora Victorina Maria de Sousa Alvim Mexia Zarco da Cunha Menezes... as herdades denominadas da Cova, das Sesmarias, da Chaminé, e Côrtes tanto Grandes como Pequenas, com seus montes, gados, arvoredos, dependencias e serventias, a partir do dia em que desposar o dito seu primo Carlos; e mais lhe faço doação de todas as minhas lavoiras do Guadiana, que vão entre os moinhos da Coitada e a minha quinta de Valle de Borrucho, constando de doze herdades seguidas, partindo d'uma banda com o Guadiana, da outra com a estrada de Moira, da outra...» E aqui Mathias foi obrigado a parar, porque um borborinho d'espanto se levantára entre os convidados.—Que? Dava tudo aquillo á filha? As lavoiras do Guadiana, o melhor trecho de propriedades do Baixo Alemtejo? Mas endoidecera esse homem com certeza! Despir-se para enriquecer o genro! Tomé dos Panascos, que trouxera arrendadas muitas terras da Torre, e passava pelo melhor avaliador da cercania, punha as mãos na cabeça com uma face attonita e consternada.—Jesus! Não contente de humilhar-se ante a viuva, inda em cima lhe cobria o filho de oiro. Mas é que ia ficar arrasado! Dar á filha mais de seiscentos contos, sem restricções, sem condições, sem cautellas... E Thomé foi junto do seu velho amigo, e disfarçadamente puxando-lhe a manga:
—Olha que te arrependes, Manuel. Que é que te fica para viver?
O da Torre encolheu os hombros.
—Desgostos, fez elle muito baixo, e disse ao tabellião para continuar.
—«E outrosim lhe entrego toda a plantação de vinha e olival, que possuo livre e isempta, no sitio das Barrocas, freguezia de S. Pedro de Portel, cerca de quatrocentos milheiros de cepa e tres mil pés de oliveira...»
—Meu pae, balbuciou Dora, avançando para o velho que estava junto da banca ennovelando a barba n'um movimento calmo.
—Vá, Mathias, depressa! ordenou elle, emquanto cada vez mais, n'um phrenesi crescente, os convidados se acotovellavam e comprimiam, não querendo acreditar no que lhes fôra lido. O tabellião enumerou o que restava d'uma fortuna rural cedida em dote, moinhos, hortas, ferragiaes, montados de retalho, ruas inteiras da aldeia; tudo que Zarco possuia, bom e mau, pequeno e grande, tudo dava a sua filha com a mais generosa confiança.