—Eu a arranjo, deixa tu estar.
—Diabo! não lhe vás para ahi dizer...
—Homem, não ponhas a tua cubiça pela femea acima do teu amor pela arte. Ou se é artista ao sacrificio, ou se muda de rumo. Zurzamos esta corja, que ha tudo a ganhar com a campanha. Porque emfim! Dirigimos nós ou não dirigimos a opinião? Sendo assim, não te parece crime sem fiança estarmos tolerando a desmoralisação que ahi se vê por todos os ramos litterarios? Mas onde vai isto parar? A nossa lingua acanalhada d'estrangeirismos parvos e inuteis. O bello ideal de Garret, colhido no elemento tradiccional, posto de banda. Um tropel de cavalgaduras colligadas pelo rèclamo, tolhendo o passo aos talentos validos. Litteratura ingloria, atravessadiça e somnambula. Litteratura filha de paes incognitos. Peste! insistia, cuspindo, o desenterrado—e animando-se:
—O quadro é flagrante, e não necessita de Taines nem Paulos Bourgets para o tracejar. Basta vêr o que se passa. Por toda a parte jovens espinafres nos declaram em sonetos e odes, como acabam de dissecar as amantes, e deitar por terra as religiões e as sociedades. Na mascarada dos poetas originaes (supponhamos) vão uns com dominó de Byron, outros de Musset, Baudelaire, Heine ou Coppée. Sahem do collegio já desesperados, blasphemantes, com o fatal amor, as ambições e os cynismos dos caracteres opprimidos pelas ferocidades da vida social, que á nascença lhes houvesse esmigalhado os rompantes. Alguns deitam-se a interrogar a historia, philosophias, podridões de sepulchros...
Pensadores que não pensam nada: archeologos capazes de reconhecer etruscos nos cacos que os barris do lixo patenteiam á porta das escadas—e apenas um ou outro nome clareia na bancada onde esphacelam uns de cachexia, e idiotisam outros na adoração da propria chateza. Necessario pôr em armas um forte cordão de tropas, que preserve d'um tal contagio o resto da gente limpa. Por mim, insurjo-me ámanhã: os valentes que me sigam! O theatro sobretudo, ergamol-o da bestificação em que jaz. Se não ha quem produza bom, resuscitemos os velhos, como em França. A Comédie dá Molière, Racine e Corneille duas vezes por semana. O mesmo nas matinées do Odéon. Não prestam os artistas? É derribal-os, reconstruil-os, ou educar artistas novos. Forçados a dezenas de papeis differentes no espaço d'uma season, os actores não profundam papel nenhum. Os nossos escriptores de theatro, por outro lado, entretidos a esquissar palhaçadas sem graça nem coherencia, estão inaptos para traçar um typo de fortes linhas e energia contornadora, que o comediante revista e agite co'a sua personalidade. E chegamos a isto—Borbas empunhando o sceptro da critica dramatica, e o borrachão do Peres arvorado em, galvanisador da historia no palco portuguez. A culpa teem-na vossês—distinguindo actores que nem sabem virgular o papel, formando traine nos camarins das estrellas faceis, indo de rastos para os comicos lhe representarem as peças: tolerando n'uma palavra, o jugo dos idiotas coifados de pontifices. Inda mais. O espirito das plateias está grosseiro: pouca vibratilidade, nenhum prazer ante as finuras do dialogo, emoção n'uma só corda... D'onde resulta que a ficelle mais decrépita, um berro d'imprecação, um esgare terrifico no fascias, qualquer mutação vocal ou passo enfatico contra o tyranno, alarmam a turba e tocam a rebate no sino grande da ovação. Tudo que fôr delicado, nervoso, reconditamento ironico, escapa a essa frandulagem d'arrière-boutique. Eis o resultado de trinta ou quarenta annos d'arte roubada aos dramalhões da Porte-Saint-Martin, mal traduzida, mal representada, mal criticada; elaboração sezonatica d'escrevinhadores que não souberam comprehender a obra inicial de Garrett, e continual-a, muito menos. Em França, o theatro romantico, brilhante e fecundo, inda agora impera, e está truncando a via ao naturalismo no palco, attenta a persistencia do gôsto publico pelas violencias dramaticas, pelo talho geometrico dos actos, e essa rara habilidade no savoir faire que caracterisou sempre a escóla, desde Casimiro Delavigne a Feuillet e Dumas pae. Não dá a impressão d'um trabalho de genio, esse theatro, mas é cheio d'arte e vigor, e comprehende-se a febre que o incende, e lateja-se na incoherencia e na furia que o convulsionam. Sardou e Dumas filho representam a transição, inda dubia e pallida, para o naturalismo continuador de Molière e Ben Johnson, d'onde brotará talvez o jacto arterial que avivente a scena, decadente em nossos dias.
—Mas os novos... tornou Rogério afagando na mente o drama que fizera.
—Entre nós levaria a palma quem soubesse continuar Garrett. Somos um povo sem drama intimo no presente, um povo cuja vida não tem caracteristicos, e onde os temperamentos fallecem d'originalidade. Quadro de natureza morta. Por conseguinte, o nosso theatro terá de viver do passado. E que passado! Artista que o assimile e insculpa sobre a scena, precisa ser ao mesmo tempo colosso e homem de genio, pois tem de crear figuras mais altas que a flexa de Strasburgo. Queres a verdade? Palpei hombros de titan no teu talento, esta noite. Só tu poderás resuscitar o nosso palco.
Rogério tinha-lhe logo cahido nos braços, lacrimoso, dizendo coisas commovidas.
—Mas que trabalho de cem sabios e vinte artistas, se quizeres levar a cabo essa incontestavel vocação! Terás de estudar a historia pedra a pedra, ruina a ruina, figura a figura, pergaminho a pergaminho; critical-a, sentir-lhe o lado artistico á luz d'uma philosophia profunda; insuflar-lhe a alma, calor, pulsação; e ir pelas ruas depois, em busca de comediantes, a arrancal-os d'onde elles estiverem, pelas officinas, pelas prisões, cavando batatas na courella d'um padre, ou vendendo agulhas com o pregão d'um belfurinheiro. E educal-os por tua conta, á tua vontade, sob o teu ponto de vista e o cyclone da tua inspiração. Para que ao vermos em scena as tuas figuras, rei, conspirador, frade, princeza e pagem, não tenhamos de berrar—bem vos conheço, heroes de tal seculo! Esse ahi é o Miranda, que tem varizes nas pernas e bebe aguardente na tasca do Ferra Moscas; essa altiva rainha esmagando o cofre de perolas d'el-rei de Castella, é nada menos que a Joaquina, que leva pancadas do amigo, e ata as meias com uma guita, a meio da barriga das pernas. Passa fóra, ó reinadios! Mas sem lisonja, sem a menor lisonja, a tua peça respira enormissimo ta... pois esqueci-me de pagar os juros na Exactidão esta tarde, disse o desenterrado subitamente, quando iam a voltar para o Alecrim. Leilão amanhã.
Perco tudo, nao tem que vêr.—Era a roupa branca da mulher, o seu vestidito de sahir, coitada!... e chailes, um prussiano acabado de fazer... Tudo para pagar remedios de botica. Terrivel coisa a miseria! Dias de jantarem café. Se emprestasses quatro libras até amanhã...