O miserável em soluços, arquejando horrivelmente, assignou.
—Tratante! Eu me vingarei. Ai de ti! Rogério ria freneticamente.
—Amanhã peça nova, ajuntou elle n'um sarcasmo tranquillo. Quatro actos d'Augier, alguma coisa de fino e superior. Alcina lá vae enrodilhada n'um papelito quasi de comparsa. O melhor papel para a Velledo! Ella que até agora só fazia os pezados centros dramaticos, Joanna a doida, a Mulher que deita cartas... entra n'uma phase nova, quer mostrar que conhece a escóla moderna. Eh! Eh! que diz a isto o scintillante Lindôso? O publico tel-as-ha na mesma noite, as duas, face a face. Elle é imparcial. Julgará.
E emquanto a raiva branca epileptisava o outro—Amanhã os jornaes saudarão a eminente actriz, pela penna dos mais festejados escriptores. E na noite da peça, enchente á cunha, bilhetes a libra, uma chuva de corôas. Ah, desforra estrondosa! Triumpho como ninguem viu outro! E alcançado por mim. Não que eu admire a Velledo. O que escrevem contra ella é verdadeiro. Mas apraz-me esmagar essa tropa de canalhas vendidos, a começar por ti.
—Sim! Ainda hontem a querias derribada, essa Velledo, já hoje lhe advogas a victoria. Quanto paga o brasileiro por esse enthusiasmo? És dos meus. Vendeste o que te restava, entras a viver d'expedientes. Eu cá fui sempre pobre, ao menos. Seguia o meu caminho bem ou mal, sem pão muita vez, oito dias n'um quarto alugado, oito n'outro, expulso quando não tinha com que pagar, desempregado, mal visto, esbarrando com a antipathia de toda a gente. Queriam no meu porte a nitidez d'um cavalheiro? Dessem-me de comer. Rogério, inflexivel, chamou o creado.
—Isto ao jornal.
—O jornal não publicará, disse Lindôso.
—O teu não. Mas o meu... Agora vamos a jantar.
—Obrigado. Acabemos com isto. Abre-me a porta!—Era quasi noite.
—Nao. Dormes cá hoje, tornou Rogério.