—Pretencioso!—porque lhes não fallava das locaes amorosas e das revistas de modas.
Comprehende-se que o meu enthusiasmo puritano por tudo quanto era grande, não sobrasse para o espartilho das serigaitas que se me agitavam no caminho.
Assim modificado, tinha agora o mais completo desprendimento pelo que se chama gozar. Apagára-se-me o ideal pelintra de muito folhetinista imberbe, que consiste em ser comprimentado á porta da Havaneza por tres burguezes que passem, mostrar todos os invernos tres pares de calças novas sobre dois de botas velhas, e um plastron vistoso n’um seio tuberculado.
A ostentação e a exterioridade enfastiavam-me como certos cheiros de acidos vegetaes. Odiava em geral o ruido e o luxo, não achando digna de um homem serio qualquer das languidas que nos passeios e nos theatros via desfilarem, monotonas e sorvadas, por diante de mim. No seio dos meus papeis ou na intimidade flagrante da natureza em festa, sentia-me outro homem, respirando saudavelmente e digerindo ás mil maravilhas; uma alegria penetrava-me com essa entoxicação anodina do gaz hilariante, nos organismos nervosos, e eu crescia e revigorava sentindo a vida como um beneficio sem preço. Foi durante esse tempo, o mais laborioso, o mais infatigavel, o mais util e o melhor de toda a minha vida, que pude realisar as collecções de insectos que hoje pertencem á Escóla Polytechnica e me valeram os emboras dos grandes trabalhadores da Europa, e estudar quasi completamente a flora continental que Brotero deixára lacunosa. N’estes trabalhos depurára-se a minha sensibilidade ao extremo de me commover perante uma bella arvore ou ao cabo do estudo de qualquer complicado coleoptero. Um individuo vegetal captivára o meu amor ardente, apaixonado e ingenuo. Era ainda a oliveira que desde a infancia me offerecia a sua sombra benefica, a sua ramaria frondente e a enorme corpolencia secular do seu tronco. Que grandeza, a d’esse gigante que uma especie de bondade envolvia e divinisava!...
Aos cincoenta annos tinha os cabellos brancos e a pelle rugosa. Minha mulher, de compleição doentia dera-me filhos sem saude e de sensibilidade estranha. Eram pequenos pallidos de grandes olhos ardentes e mãos febris, frageis e curiosos, cujo futuro me fazia tremer.
Estava cançado e velho. Toda a vida sentira pelo dinheiro um desprezo sem limites, não lhe dando a honra sequer de o accumular. Perdera a vista do olho direito, aos trabalhos do microscopio. Era mais pobre que no tempo de meu pai—tinha apenas de meu o olival. Para economisar, dirigia eu mesmo os trabalhos do campo e andava vestido de saragoça. Ás vezes, vinha-me o remorso de não ter alcançado uma fortuna para essas pobres crianças, que a perpetua contemplação do mesmo panorama parecia enlutar de melancolias negras e de presentimentos funestos. Pouco a pouco, á medida que os annos me polvilhavam de neve os cabellos, ia experimentando uma irritação surda pelo meu passado laborioso, mas esteril d’essa cousa vil e preciosa chamada moeda. Não tinha senão despezas; lucros, raros! Então reneguei da heroica abnegação de outros tempos, tornando-me vulgar, macambuzio e cheio de admiração pelos lavradores opulentos da visinhança, que recolhiam vinho ás adegas e trigo aos celleiros. Os filhos d’elles espesinhariam talvez um dia os meus filhos, vingando a imbecilidade dos paes da orgulhosa superioridade com que eu os tratára. Os filhos d’elles seriam felizes, cheios de confortos e prazeres, com a faculdade de estudarem onde bem quizessem, e de fazerem fortuna como bem lhes parecesse. E os meus, mal enroupados, doentios e invejosos—quem sabe!—se conhecendo um dia a minha historia maldiriam a intransigencia do meu caracter e a pouca solicitude com que lhes tratára dos interesses!
Os meus dias então eram levados em percorrer o olival, no calculo dos litros de azeite que me renderia a colheita. Que desalento aquelle meu! As arvores não carregavam todos os annos: enchia-as de pragas, e maldizia a minha vida.
A oliveira secular sómente, comprehendendo a minha situação e adivinhando a angustia d’aquelles passeios solitarios, procurava com fructos abundantes compensar o modesto tributo que as outras arvores tão custosamente me pagavam. Fôra para mim a eterna mãi affectuosa, de cujos ramos pendera criança, a benevola confidente que cobrira do seu docel de folhagens o meu amor por Martha, o esplendido e victorioso vegetal diante de que o meu extasi de botanico tantas e tamanhas vezes tinha exultado. O amor que eu lhe votára soffrera as quatro phases de todos os amores da vida humana, em transigencia sempre com a orientação do caracter e com o progredir dos annos. Fôra primeiro, o amor de criança incoherente e doido; fôra mais tarde o amor de adolescente, idealista e reveur, representativo da idade em que o homem desaggrega da alma as crenças innocentes e começa a participar da influencia dos primeiros instinctos masculos. Transfeito no amor de sabio elevára-me até regiões altivolas.—Depois, no inverno da vida, aquella emoção archangelica primeiro, impregnada de poesia radiosa depois, e tornada sublime por fim, decahira no vil egoismo que mais prefere aquillo que mais rende, impressão sem grandeza e sem ideal, derradeira efflorescencia da alma obcecada pelos interesses, pelas amarguras e pelas oppressões!