—Credo, mulher, que até faz arripiar! increpava a fidalgona, fazendo a cruz nos seios chuchados.
E ergueu-se, tomando o braço do padre Nazareth.
—Dê-se ao incommodo de me mostrar a cerca, senhor padre. Vagarosamente desceram a escadaria de pedra toda coberta de caracoleiros e heras, que vinha abrir em leque ao alto de uma rua de loureiros e eloendros.
Manoel do Cabo albardava o Ginaia, depois de jantar brutalmente na cozinha, mais o hortelão. Quando o padre passou rente, o sacrista perguntou-lhe:
—Então?
—Dentro de um mez está pago em dia, tornou o outro, e foi andando.
A velha sympathisára de vez com o padre Nazareth, achando-lhe a compostura grave e a palavra christã. Sómente lhe via um defeito—era talvez um pouco camponio, mãos grossas e sem anneis, uma rugosidade de pelle que dava contactos irritantes.
—Emfim, dizia a governante, na falta de outro...
Padre Nazareth, por seu turno, andava regalado e contente. Vinha almoçar e jantar todos os dias, grandes cuidados com as camisas, e barbeava-se a miudo. Nos primeiros dias tivera contrariedades. Aos seus instinctos de agricultor brutal repugnavam as branduras da catechese, os mellifluos conselhos ditos entre citações de Santo Agostinho, João Chrysostomo, Carlos Borromeu e Basilio, authores por que, valha a verdade, passára a correr, havia bons annos, no seminario. Afizera-se desde que residia na villa, a uma vida de episodios rudes, vindimas, ceifas e agiotagem systematica. O seu genio violento dava-lhe intermittencias de cólera biliosa, durante as quaes rogava pragas e dizia obscenidades. Sabia o valor do dinheiro, e conforme usava dizer—poucos o enganavam. Adorava o dôce. Em pandegas de amigos porém, gozava fama de gracioso e sabia beber. Como prégador era fallado nas terras proximas—boa voz, fazendo chorar na Paixão, gesto dramatico e uma emphase pouco seguida em geral nos pulpitos da provincia.