—Cada qual que se consulte e proceda como melhor lhe convier.

Mal a romaria chegou á ladeira que afrontava o convento, os carros fizeram alto, por conselho de D. Maria do Juiz, que era authoridade entre as devotas. As Silvas lançaram-se logo de joelhos. Algumas velhas tinham-se descalçado, e magoando os pés nas asperezas da vereda abrazada de sol, seguiam desfiando rosarios, as offrendas em taleigas de ramagens, chales pela cabeça.

Ao mesmo tempo, o povoléo pressuroso, faminto de assombros e sem paciencia para esperar que os carros passassem na azinhaga, extravasára da estreiteza do caminho, espraiando-se pelas terras ceifadas, aos pulos por vallados e alvercas. Uma febre podre de superstições e pavores dilatava os olhares e enlividecia as epidermes bronzeas, alagadas em suor. De todos os lados choviam promessas, alqueires de azeite, saccos de trigo, milagres de cêra, cabellos, mortalhas, uma infinidade de coisas. Uns promettiam para que o Senhor lhes livrasse os filhos de soldados, outros querendo triplicada seára, em quanto varios desalentados pela doença, sezonaticos e tristes, vinham simplesmente solicitar a cura immediata, mediante o valor de uma fogaça. Era pensamento de todos engodar o idolo com dadivas chinfrins, como fariam a um selvagem por meio de missangas e estamparias. E no intuito de um bom negocio premeditado, vinham chancellar ao convento o contracto, mentalmente e sem escrupulos. Á entrada no templo, foi uma berraria infernal, prantos, latinorios, desmaios... Á frente as velhas descalças, mãos postas e olhos no céo, faziam um clamor de ladainhas e preces, com vozes esganiçadas e lamentosas. A D. Maria do Juiz, que gostava de figurar nas festas e era aia de Santa Catharina, levára de casa um Santo Lenho de prata, que ergueu á frente da multidão.

Desgrenhadas e cheias de espinhas carnaes, as Silvas vinham-se arrastando nos joelhos, de braços abertos, e a cada passo pendiam de canceira com delirios de virgens flatulentas. A. D. Maria do Juiz chegava-se então, e solemnemente, como vira fazer em Beja ao bispo, dava o relicario a beijar, bolsando esquirolas de oração.

For detraz d’ellas accumulava-se a gente esfrangalhada, obtusa n’um pasmo irracional. E batendo nos peitos, muitos diziam n’uma especie de uivo somnolento, entre caudaes de pranto:

—Misericordia! Misericordia!

Eram Trindades quando padre Nazareth appareceu em casa do sacrista. Desde manhã que não sahia de casa. O calor trazia-o morto, suores salvo seja, de jumentinho podre, uma seccura diabolica. Que ia pela cidade?

Manoel do Cabo pôz-se a dizer—o prior tinha zurrado: pouca vergonha! na loja do Burjaca não tinham comido a pantominice, o mulherio fôra em chusma ao convento, havia tres mil e tanto de esmolas, afóra azeite e pães alvos. Padre Nazareth sacudia o pó das mangas, um fremito jubiloso de narinas e o olho nadando em fluidos de victoria. E commovido exclamou:

—Grande povo este!

Depois, muito confidencial: