—Fallar com os trunfos! cochichava-se ás noites, na loja do Burjaca.
E com veneração, referia-se aos quatro ventos a sua alliança com as notabilidades politicas, deputados que lhe offereciam jantares, lhe mandavam cartas de amostras, Diarios da Camara com discursos e as minutas de preços do vinho, nos mercados de Lisboa.
Aquella preponderancia fazia-o temido, e andava nas palminhas, dificultando a sua intimidade aos menos favorecidos.
No intuito de surprehender alguma informação relativa ao negocio, os proprietarios procediam com elle por pequenas sabujices, grande interesse pela azia de sua reverencia, um esmero de palavras e rodeios servis, como se fallassem a um senhor. Villa Alva queria em elle querendo, ria em elle rindo e basofiava em elle basofiando. E a conezia não chegava nunca! Emfim, uma tarde correu que o velho cura ia ser transferido a exigencias da politica, para Sant’Anna, lugarejo de algumas casas, sem recursos, sem agricultura e sem rendas, torpemente esquecido na aridez da serra. Em casa das Silvas, padre Nazareth mostrou-se penalisado do pobre homem, que ficava a morrer de fome. Mas intimamente dava-se os parabens. Conseguira afastar finalmente o pulha que se atrevia a humilhar com sessenta annos de honrada labuta, a sua florente carreira de homem sagaz, em tirocinio para conego.
Sobre o caso, Manoel do Cabo architectou logo o seu tratado pratico de moral caracteristica, por este modo formulada, sempre que um mendigo se arrastava para lhe pedir esmola:
—Grande cavalgadura!
—Porque, meu bemfeitor?
—Inda o pergunta! Aposto que é homem de bem!
—Saiba o meu bemfeitor que sim.
—Pois amigo, se vossê tem feito canalhice em quanto era forte, estava agora rico. Pedaço d’alarve! E exemplificando, estendia o braço para o fundo da praça, onde d’um lado sorria a casa nova do capellão, ampla, clara e toda alegre das tintas frescas, e a miseravel vivenda empardecida e deserta, que pertencia ao parocho velho, e desde a sua partida se não abrira mais!