A contemplação do oceano cantando a sua eterna legenda, a linha caustica entre céo e mar, a solidão e a poesia do sitio, convidavam aquelles homens negros, que a meditação preenchia, como um liquido preenche um vaso. A cerca perdeu n’esse tempo uma parte da sua nudez—viram-se os limoeiros e as madre-silvas vestir os muros, jorrar agua das carrancas dos tanques, e os pomares arredondarem as suas pinhas de verde envernizado. Permittiu-se ao povo que visitasse a horta, os claustros e as grutas de devoção particular. Á hora da missa a turba enchia o mosteiro avida e devota; as confissões feitas com fervor, mas sem as ameaças do inferno que os antigos monges vociferavam, attrahiam sympathicamente os penitentes. E Deus appareceu á terra sob uma face de perdão, que quasi se desconhecia.

Cem annos depois, apesar de se guardarem com a maior fidelidade, as santas reliquias e milagres do mosteiro, as vetustas tradições estavam esquecidas entre o povo, e poucos se lembravam de ter ouvido aos avós a narrativa das duas cabeças do enforcado, do pai e do filho, e da morte do physico-mór.

Mas eis que o marquez expulsa os jesuitas, cujo poder e argucia arcavam com os seus.

Do portico escancarado vê-se sahir uma procissão de padres negros e fronte pallida, de cruz á frente. As santas mulheres ajoelham na passagem para lhes beijar os vestidos e receber a ultima benção. De novo o mosteiro fica deserto, sem o caracter hospitaleiro de uma casa de conselho e oração consoladora. Os negros phantasmas dos monges ascetas, lividos e frios, prégando abstinencia e flagicios volvem a percorrer os claustros lugubres e a rezar nas capellas, em que os olhos dos idolos ameaçam o mundo e proclamam a aniquilação dos povos. Uma treva enlucta os espiritos e fluctua de emtorno ás muralhas. Em baixo, o escarneo da vaga que alue pelas cavernas o alicerce de rochas do templo, é como um rir de diabo aos pés de um Deus inanimado! De noite, a lua que lança flechas pallidas pelas setteiras profundas para dentro do mosteiro, alumia estranhos conclaves de espectros. O vento segreda nos nichos e á roda dos mausoléos, e baixinho parece orar aos pés do santuario. A chuva infiltra-se nas abobadas e humedece os cimentos. D’entre as junturas das pedras irrompem gramineas e zambujaes. Ninguem vai vêr o mosteiro e o portico está fechado. E aquella mole de pedra, emburelada em musgos e erguida á beira do mar, lembra um suicida ajoelhado fazendo a ultima oração.


No verão de 1880, o conde F. meu amigo, lembrou-me que poderiamos fazer na sua propriedade uma estação agradavel. Tinham acabado n’ella um chalet elegantissimo em tijolo vermelho, com tectos de cortiça apainelada, á beira-mar. O parque de eucalyptus, enorme e cruzado de aleas, que uma arêa negra polvilhava, offerecia já troncos de grande espessura e belleza, soberbos e direitos, sacudindo aos ventos salgados da costa os seus molhos de folhas em cutelo. Para o interior a vinha era tão exuberante que subia pelos troncos das arvores, os pomares alastravam-se turgidos de fructos n’uma distancia de milhas, e nas collinas que demarcavam o dominio, immobilisava-se o verde funebre dos pinhaes, cujos filamentos pareciam cabellos verdes de antigos deuses aricos. Na matta, a caça abundava, coelhos, rapozas, perdizes e gallinholas. Para obtermos a melhor pesca, bastava que debruçados na amura de rochedos, lançassemos as redes á agua. O calor em Lisboa apertava; imagine-se o que seria no Alemtejo, na casa de meus paes! Decididamente valia a pena ir com F., valia decididamente a pena. E partimos. Antes de penetrar na quinta dei com o mosteiro, em que nunca ouvira fallar. Veio-me naturalmente a curiosidade de o vêr por detalhe, e passar uma noite até, com as sombras legendarias e romanescas que tamanho medo faziam ás aldêas circumvisinhas.

Por baixo do edificio, o mar tinha escavado profundissimas cavernas que as algas mais finas tapisavam traiçoeiramente. Estalactites conicas desciam da abobada a encontrar estalagmites, em que os molluscos arrastavam mosaicos de incrustações excentricas. Por entre as columnatas o fragor da ressaca, nas noites de temporal, era de instrumentação titanica, e reboava no templo como a evocação biblica do Valle de Josaphat.

As grutas prolongavam-se nas trevas em todas as direcções, e iamos de gatas, escorregando nas babugens que a maré deixava na dentadura das penedias. D’uma vez o archote apagou-se-nos, e o phantastico palacio do mar não tinha termo—galerias sobre galerias, columnas truncadas e janellas abertas sobre a treva fetida e sepulchral!

Visitadas as cryptas, penetrámos no mosteiro. Tão pesada e ampla construcção fez-me vêr que a base perdia pouco a pouco a solidez, á medida que por baixo a onda ia limando o granito. Aqui e além até, as abobadas fendiam surrateiramente; em cada inverno chuvoso, se succediam os desabamentos parciaes, e o lagedo dos claustros abaúlava-se abrindo boccas nas junturas, de que uma respiração putrida parecia exhalar-se. Tinhamos chegado á quinta nos fins de maio, e em julho ainda lá estavamos. Mas fatigados já, o conde especialmente, que o retinham alli negocios de dinheiro, por que dizia sentir o mais authentico desprezo. Visitado o mosteiro, caçadas todas as perdizes, gallinholas e betardas do sitio, ferido nos viveiros naturaes da costa um bom golpe de pesca, as nossas duas imaginações impuzeram-se o trabalho de descobrir diversão, que nos garantisse a estada na quinta até meados de agosto—tempo de Cascaes e do jogo forte.

Uma manhã ergui-me antes do dia e fui acordar o conde.