Iam tranquillamente pelos terrenos ceifados, os carneiros dos rebanhos, alongando o pescoço, a fofa corpulencia tufada da lã patente em camas de espiraesinhas miudas.
Alguns velhos guias experientes e graves, de focinho erguido, a grossa cornadura em anneis de diametros crescentes, toda enrolada como o arripio da cabelleira de um dandy, chocalho pendente por corrêas de couro crú, a orelha inquieta, olhavam vivamente o largo, bebendo os sons e procurando-lhes a origem solicitos, como quem tem sobre si a responsabilidade da tribu e o futuro dos pequeninos. Acima da redondeza das ancas de alguns, cabritinhos fulvos, de grandes orelhas horisontaes, uma meiguice candida na vista, erguiam-se a prumo furando caminho, as maxillas entreabertas, por onde se escapava um queixume tenuissimo—mé! mé!—alguma coisa como os rudimentos da cartilha do rebanho. Varios preguiçosos, estacados a meio da corrente mergulhavam o focinho na agua, bebendo. Poucos tinham já passado, e cortavam a dente as gramineas alastradas nas barranceiras. O velho cão descança, n’uma postura séria de patriarcha, em quanto nas meias tintas dos planos secundarios, o pastor de manta ao hombro e polainas encarquilhando na grossa tromba dos sapatos cardados, tinha o seu ar pasmado de montanhez, olhando a catarata de ouro fundido que o sol jorrava do nascente, n’uma apotheose de causticas vivas—olhar em que se estagnava a silenciosa doçura triste dos olivaes cinzentos e se reflectia a concepção pantheista de um Deus amantissimo, que fecunda os trigos das searas, preside ás crias e vem de noite, mansamente, com o seu capuz de estrellas derrubado para diante, lançar a benção ao gado que dorme, inoculando no sonho do pastor o esmalte de um sorriso de ceifeira, vermelho como as cerejas humidas de junho.
Correndo através do montado cheguei á ribeira, que pude salvar n’um pulo de lobo, e sem me deter entrei a trepar a pedregosa encosta, na direitura do ninho. Faziam-se alli accumulações selvaticas de tojeiros e silvados, cabeças de rochedos pardacentos, espinhaes de luxuriante amplitude, que tolhiam o passo a quem ia. E aquelle recanto plutonico e brusco desenhava-se n’uma como penumbra de floresta, que de cima cahia filtrada pelos amontoados da folhagem. Deixára de ouvir a aguia, e era pungente o socego d’aquella região, equiparado ao orpheon gigantesco de volateis, que na planicie entoava o poema symphonico da manhã. Por duas ou tres vezes ergui a voz para insufflar a vida nos echos do desfiladeiro. De rocha em rocha quando muito, o echo repetia a ultima syllaba, n’um murmurio timido como rezado á roda de um feretro, e morria.
Pela montanha, troncos penitentes e negros, orando de braços abertos. Nos pegos da ribeira, as reticulações verdenegras dos limos deixando evolar a putrilagem das febres más. Silencio abrazado, pesando.
Quando cheguei ao ninho arquejava. E antes de erguer a vista sobre elle, detive-me um instante, olhando á roda com um terror sombrio que o remorso envenenava. Se a aguia désse commigo podia matar-me á bicada. E teria razão—ai de mim!
Estava sósinho. Não se via d’alli o monte já. De repente, casualmente, sem mesmo querer, dei com a aguia que de cima do ninho abria as azas, e sobre mim estendia o seu pescoço avido. Fiquei tremendo ante a raiva silenciosa que paralysava a terrivel rainha. Ella ia de certo formar vôo e cahir sobre mim, para dilacerar-me com as suas garras de tres gumes implacaveis de uma vingança cruel.
Olhamo’-nos por tempo. As azas da aguia abriam os seus leques enormes de varetas curvas. A immobilisação porém continuava e o pescoço permanecia cahido á borda do ninho. Veio-me a idéa de que podia estar morta. Atirei-lhe com uma pedra—a mesma indifferença.
Sem querer saber de mais, desenrolei a corda e atirei-a á primeira pernada da arvore. Quando attingi a altura do ninho, pude olhar bem de perto a aguia agonisante, que um fremito vago percorria. Era poderosa e magnifica, de enormes azas pardacentas, cujas fortes remiges se aguçavam como punhaes, na ponta. Estava de bruços sobre o ninho, como se quizera aquecer o peito de encontro aos froixeis alvinitentes em que os filhinhos tinham visto a primeira luz. A cabeça um pouco chata descahia adiante n’um bico de bordos dentados, e sobre a iris de oiro, a nictitante ia descahindo na sombra da agonia, como um apagador sobre a luz do cirio paschal.
A aguia morreu n’esse dia, á mesma hora em que as outras aves voltavam cantando aos ninhos, para dormir com a prole. Por muito tempo, cruzando o montado atraz dos rebanhos de meu pai, pude vêr nos cimos da azinheira gigante, suspenso o berço-tumulo, a que o esqueleto da aguia fazia guarda, dia e noite, de azas estendidas, branquejando na sombria folhagem da arvore. E vinham-me então remorsos, que fôra eu o assassino d’aquella dynastia real!