—Que fazes tu, quando eu vou para a officina?
—Costuro alguma coisa, durmo. É tão triste!...
—Mas filha, deves arranjar a casa... aventurou elle.
Carolina ficou-se. A sua natureza preguiçosa, habituada aos ocios, quebrava-se de fraquezas, bocejos e espreguiçamentos, só de lembrar-se do trabalho que tinha a fazer. Ás vezes luctava, fazia uma grande actividade, mexendo por um canto e por outro, mas vinha a fadiga, o aborrecimento: atirava-se para cima dos colchões.
—Se eu não posso!...
O aprendiz dera-lhe vestidos novos, uma pequena capa de xadrez, mantas, roupas de patente com abertos. E tudo andava pendurado pelas portas, á poeira e aos encontrões, desmazeladamente. Passava horas penteando os seus cabellos ruivos, annelados e finos, de lustro macio e espessura abundante, phantasiando penteados, ensaiando laços, cuias arrebitadas, vaidadesinhas de criança. Outras vezes amanhecia preoccupada, taciturna, nervosa, salivando pelos cantos; fazia o almoço muito cedo. O João ainda ficava ás vezes na cama: ella ia devagarinho olhal-o; aproximava-se curiosa, absorta no vulto do aprendiz que arfava sob as roupas mornas. E cheia de vertigens, de subitaneas paixões que rebentavam do seu temperamento em espiraes de desejos, lançava-se a elle, abraçando-o como doida, fazendo as protestações mais vivas e os amuos mais dôces, tentando vender-se sob uma face nova, inventando mesmo ardores, manias e excentricos phrenesis inexplicaveis. No meio de tudo isto, e afóra estes arrulhos, o seu desarranjo era o mesmo; não lhe passava pela cabeça que captivaria o seu homem, tornando-lhe o lar alegre, limpo, fresco, fazendo luzir a boa ordem, a boa administração e o decoro nos mais simples pormenores da residencia. Fóra do peccado mortal, não tinha prestimo, nem imaginação, nem proposito.
E n’este meio o seu corpo desenvolvera-se um pouco; os seios ampliaram-se n’uma curva graciosa, de contorno quasi casto; e esmaltado de pallidez morbida, lasciva e um pouco scismadora, o seu rosto era dôce, de uma harmonia dolente, como certas pinturas de virgens martyres que oram em attitudes pias, no fundo das capellas da arte gothica.
Um dia o João achou-a fetida, cheirando a saias velhas; nunca mais lhe sahiu esta idéa da mente; entrou a achal-a esqueletica e cançada; ao deitar-se fazia um esforço para não parecer saciado, mas os seus beijos eram frios, convencionaes, espaçados. Ella reclamava, cobrindo-o da sua paixão como de um caustico, querendo reapoderar-se d’um amor que lhe sentia fugir e padecendo em balde, ciumes de todo o mundo. E começou a desconfiar, a seguir o João á officina, a furtar-lhe as voltas. Nas menores palavras que elle dizia encontrava dois sentidos, o apparente, e o occulto que parecia envolver sempre um sarcasmo, uma ameaça, um insulto. Foi uma lucta tremenda; a sós fallava alto, altercava comsigo mesma, dizia pragas, architectando projectos de vingança e planos de seducção.
Havia horas em que a sua vontade era morrer, tomar qualquer corrosivo, precipitar-se da muralha de S. Pedro de Alcantara; outras vezes estalava de afflicçoes, contorcia-se em desvairamentos supremos, querendo chorar, soluçar, pôr em evidencia a sua sorte. Quando elle vinha, affectava rosto sereno, uma certa despreoccupação feliz: mas a sua gana era apertar-lhe as guelas, para que outra o não gozasse. Em quanto o João comia, ella encostada á porta da cozinha punha-se a fital-o do fundo da sua paixão damnada, cheia de idéas tragicas. Uma noite agarrou-o pela cintura, os olhos envidraçados:
—Tinha mesmo vontade de te matar! disse sofrega. O João riu-se, olhando-a; mas ficou logo todo serio, abrazado n’aquella ancia, e uma corrente galvanica percorria-o, nascida no olhar d’ella, sequioso e feroz, cheio de gula e de fel.