De uma vez vira-o erguer-se de punho cerrado e olho torvo a desancar n’uma malta que primeiro o espicaçara de bestialidades. Até alli, todos de boa saude, louvado Deus! Seis annos de ventura decorrida sem attritos e sem nuvens. E os dois rapazitos!... Lembrava-se dos terrores do primeiro parto e das alternativas de humor caracteristicas, os suores dorsaes e frios, a dôrzinha vaga primeiro e intensa depois, em toda a região dilatada.

Em certos momentos, um mundo de phantasias projectando-se-lhe do phantoscopio da mente, innundava-a de photospheras de luminosa essencia—se seria um pequeno, valentão capaz de ajudar o pai se seria uma rapariga de calcanhar quadrado e dentes solidos que enchesse de cantigas e de actividade o ninho!... Todas as noites á hora da cêa, o casal accumulava e destruia planos, fazendo e desfazendo receios—perdidas evocações d’esse primeiro tempo de esposa!... Mirando a casita e as cadeiras de Evora da casa de fóra, as prateleiras de louça e as quatro garrafas de vidro branco postas em symetria, olhando no quintalorio a méda de azinho para os lumes do inverno e o bacoro para a fartura do anno, Joanna sentia, no meio dos filhos e dos labores constantes da sua vida azafamada, um bem estar de consciencia satisfeita, um como jubilo intimo. O seu trabalho caseiro luzia: viam-lhe sempre o ladrilho varrido e as cadeiras arrumadas, um esteirão algarvio ao canto para as visitas, cobertas de retalhos lançadas sobre a mesa e dorsos dos bahús, o pequeno espelho redondo pendendo ao lado de um Francisco José, d’Epinal, brancas as paredes com rodapé de almagre em torno, e a cinza do lume constantemente varrida do lar. Dando largas á sua iniciativa de negociante creára além d’isso no quintal um exercito de gallinhas e gansos, cujos ovos o Ricardo ia vender todas as manhãs em altos pregões, pelas ruas da villa.

Manhã clara, era a primeira a erguer-se na rua e a encetar a labuta inquebrantavel e voluntariosa.

Paredes meias vivia a Francisca, casada com o Estragado, um bebedo.

Joanna tinha amizade a essa pobre mulher macilenta e soffredora, semanalmente espancada pelo marido, que para mais lhe impunha o sacrificio de fomes e farrapos.

Dissera muitas vezes, vendo-a passar para o pégo com trouxas de roupa á cabeça, envelhecida e estupida pelo contagio das miserias e brutalidades soffridas, com o filho semi-nú agarrado ás saias e o engeitadinho ao peito:

—Nem sei como vossemecê póde, coitadinha! A outra não se queixava; tinha as miseraveis resignações d’uma cadella expulsa; com um geito de hombros e a voz sumida retrucava sempre:

—Então, paciencia! Deus não quiz...

E Francisca era reconhecida á visinha, que bastantes vezes a livrára das brutalidades do bebedo e das frequentes penurias da casa.

A Joanna, comparando a sua sorte á da pobre engelhada, sentia da comparação, exaltar-se a sua felicidade, abençoando a hora em que lhe nascera o primeiro impulso para o Jerolmo. Quando este chegava do trabalho, com o largo e velho chapéo braguez deitado para a nuca, a manta e a enxada ao hombro, ceifões já pellados pelo convivio dos asperos attritos, o burro e o borrego atraz, fartos de herva e alegres da jornada, Joanna não se continha sem lhe referir os soffrimentos da pobre mulher e a pancadaria do Estragado.