—Era grande fortuna, homem. Casa farta, boa paga, elle uma bella pessoa. Mas o Estragado!... Ora não vi!
Estavam na cozinha. O Jerolmo á cancella, limpava da lama as polainas de saragoça e o ferro da enxada, em quanto a Joanna de avental, refogava a cêa e ia pondo a mesa, ao fresco, no quintal. Sentiram passos na casa de fóra, a Joanna foi vêr. Era o Estragado que sahia surrateiramente.
—O visinho é bem confiado, não ha duvida, disse a Joanna toda zangada. Não ha maior atrevimento! Quem escuta de si ouve, e é bem certo.
—Diga ao seu marido que m’as não fica a dever.
—Deixa-o lá, disse pachorrentamente o marido.—Está bebedo, coitado. Deixa-o ir!
Cearam; o Jerolmo á cabeceira da banca vigiava o filho, advertindo-o a cada partida do garoto. Entre os dois ficava o cão.—Da outra banda a Joanna, com o pequenito adormecido no regaço, migava sopas na malga.
Por cima, o céo um pouco escurecido e todo picado d’estrellas, tinha um arfar de penumbras profundas, em que os olhos se perdiam, divagando. Um ventinho fresco, impregnado de fenos, fazia agitar com murmurios finos as folhas metallicas da figueira verdeal. O bacoro no chiqueiro resonava espapaçado no charco. Tempo das eiras. Puzeram-se a fallar nos trigos; as searas tinham fundido bem, mas os tremezes menos. Então o Jerolmo contou as suas esperanças no trigo ribeirinho que semeara na courella das Taypas—um palmo de terra que valia um milhão, segundo elle.
—E estava lindo, ahi pelo tempo da fava! disse a Joanna.
—Do que precisavamos era de uma vinhita—tornou o Jerolmo após um momento de pausa.—E partia o pão trigueiro em grandes pedaços.
—Nada como a vinha p’ra render.