Sahiu de lá fallando menos mal as linguas, bordando jardins suspensos em almofadas de apparato, com um vicio, o piano, e um vacuo diante da sua alma—a vida em que ia entrar. Sua mãi, uma rainha de bailes, lia romances dias inteiros, em chambre, deitada n’um divan opulento, o cabello por cima das mesas, perfumes caros na epiderme e meias de sêda esticadas acima do joelho.

E ella afez-se tambem ás leituras.

Belot, que uma amiga lhe emprestára, poz em vibração na sua alma uma corda mysteriosa, e pela primeira vez na sua vida de virgem, se abrasou em impetos. E o seu sangue impetuoso teve allucinações candentes, em que passavam homens brancos, virginaes, athleticos, nús e vívidos, que lhe estendiam os braços.

Desceu com o visconde Ponson, com o scelerado Capendu e com o patife Zaccone, aos pavores dos subterraneos em que se despenhavam protogonistas heroicos; quiz sofrer com elles as inclemencias dos carceres e as agonias da tortura, escamugindo-se quando pôde pelas sahidas mysteriosas em que molas occultas fazem girar portões de rochedos; subiu as escadas de corda, mascarada de velludo negro, com um frasquinho de saes no bolso e um punhal nos dentes; penetrou conclaves lobregos em que conspiradores avançam solemnemente para fazer phrases, e se pronunciam juramentos terriveis com as espadas núas sobre braseiros consagrados, á luz de tochas de cêra amarella. E romanticamente decorou phrases pomposas das heroinas, teve attitudes theatraes de uma exhibição ridicula, esgares e lyrismos. Pintava de bistre, olheiras sentimentaes, e sobre os hombros semi-nús em gaze vaporoso, deixou revolutear os cabellos turbulentos, seccos, crespos, em tons hilariantes.

Mas uma tarde parou uma carruagem á porta.

Um rapaz que ella vira em S. Carlos, de luneta de oiro, na Havaneza puxando punhos de apparato, nos chás do ministro d’Allemanha declamando theorias, no parlamento pedindo caminhos de ferro em nome do progresso e da civilisação, entrou com um velho.

Vinham pedil-a em casamento.

O pai de Beatrice fazia politica, pedia tambem caminhos de ferro e moralidade nas provincias da publica administração, mal sabia o nome dos filhos e só ao jantar estava com a familia, não obstante lamentar a decadencia da sociedade portugueza, nos artigos de fundo.

A mãi por causa d’ella, não podia installar commodamente os amantes, tinha por isso birras, rogava pragas em voz alta. Vida do diabo! Raio de filhos!

Um dos apaixonados, o conego D. Venancio, queixára-se até ás criadas, que aquillo não podia continuar assim, que nem uma pessoa era senhor de levar a sua capa de trazer e os seus solidéos de retroz preto, com uma borlasinha na nuca.