POBRE—Bedelho de cães e gatos.
POÇO—Furo por onde quasi sempre sae o dinheiro e não entra agua.
POEMA—Caldeirada de versos. Eu prefiro as de enguia.
POESIA—É como cada um a sente e{213} entende. Para uns resume-se n'um bom pichel de vinho novo, diante de um lombo assado; para outros é a lua reflectindo-se nas aguas serenas dos lagos; para a mãe, o riso do filhinho no berço; para o pae, o não ouvir chorar a creança quando quer trabalhar; para o soldado, não ter de ir á guerra; para o empregado, um feriado; para a donzella, um noivo; para o agiota, noventa e nove por cento; para o ministro, a pasta indisputada e os applausos da maioria; para o marinheiro, o bom vento; para o medico, um caso de doença bem horrivel e bem desconhecida; para o fumador, optimos charutos; para o viajante, mundos desconhecidos; para a mulher, um vestido como não tenha nenhuma das suas amigas; para o marido, uma familia que não lhe peça dinheiro; para o janota, objectos que pôr no prego e botequim que fie cognac; para as actrizes, palmas e admiradores ricos; para os escrevinhadores, quem lisonjeie as suas inepcias e semsaborias;{214} para os maus auctores, quem lhes louve a estupidez e a ignorancia; para os emprezarios, auctores famintos; para os inuteis, um fato bem feito... para mim a poesia é o silencio, a solidão e o somno.
POETA—Simplorio.
—Esculptor que desenha no ar.
—Pyrilampo que segrega pieguices luminosas.
—Ente que se diz incomprehendido, e que o é realmente quando pretende conquistar o mundo em verso. Desgraçado! Se queres que te entendam, falla na boa e classica prosa do peru trufado e do vinho da Madeira, que tu não detestas... nem eu.
POLEIRO—Pomo de discordia. E cada vez ha mais gallos!
POLICIA (DE LISBOA)—Um mytho.{215}