«A obra d'este jornal será inteiramente e desassombradamente revolucionaria. Tanto vale dizer[{59}] que será um jornal de combate e dirá tudo o que fôr mister:

«a despeito da vontade pessoal do rei;

«a despeito da tyrannia dos governos;

«a despeito do odio e da antipathia dos homens e dos partidos que exploram o paiz.»

No primeiro numero da Republica Portugueza tambem foram estampados os retratos do rei e de dois dos ministros, precedidos d'estas palavras: Pelourinho: Os tres de Inglaterra. Nos outros logares do jornal explodia a incitação á revolta, usando-se d'uma linguagem que nunca até ali fôra empregada com tanta franqueza. D'aqui resultou o crear-se, pelo estimulo do exemplo, uma atmosphera de decisiva batalha, que nem os acontecimentos nem os homens haviam ainda preparado. Affirma-o João Chagas:

«A revolta de 31 de janeiro pode attribuir-se em grande parte ás instigações directas d'esse jornal, o qual, por seu turno, se veiu a publico, não foi senão em virtude de circumstancias que não se produziriam sem o conflicto diplomatico anglo-portuguez. Por isso reputamos esse conflicto a causa unica do movimento revolucionario do Porto, que, sem elle, nem encontraria meio idoneo em que se consumasse, nem agentes que o provocassem. Dar-se-hia outro, mais tarde, e em outras circumstancias. Esse não».

Na Republica Portugueza collaboraram José Sampaio (Bruno), Julio de Mattos, Basilio Telles, Latino Coelho, Elias Garcia, Gomes Leal, Heliodoro Salgado e, o que é mais interessante fixar, varios officiaes do exercito—um dos quaes, em serviço na guarda municipal, teve um dia ensejo de ver querellada a sua prosa. A par d'essa collaboração,[{60}] logo que a Republica Portugueza viu a luz da publicidade, arremettendo violentamente contra as instituições, appareceram um sem numero de communicações «sob a forma de cartas e manifestos, de soldados, cabos e sargentos da guarnição portuense, a principio, depois de militares das guarnições da provincia, por ultimo de officiaes de todas as graduações já do Porto já de Lisboa». E os que as enviavam ao jornal faziam-no de modo tão explicito que, em certa altura, houve necessidade de destruir uma boa parte da papelada, receiando-se que ella cahisse em poder dos defensores do regimen e collocasse os signatarios em situação compromettida. Como amostra da linguagem empregada n'esses documentos, damos a seguir o trecho d'uma carta enviada n'essa occasião á Republica Portugueza por um grupo de officiaes transmontanos:

Camaradas: A mãe-patria agonisa. É preciso que seus filhos a salvem sem demora, porque a sua salvação é do nosso dever. Salvemos a patria proclamando a Republica. Camaradas: Não ha tempo a perder.

D'aqui se deprehende facilmente que os acontecimentos de janeiro de 1890 não tinham apenas perturbado a massa generosa do povo, mas egualmente o exercito, que se sentira molestado nos seus brios. Como toda a nação, o exercito reclamava o desaggravo. E esse estado de animos não se revelava simplesmente nas communicações dirigidas á Republica Portugueza, mas tambem em dois orgãos da classe militar, o Sargento e a Vedeta, que deram á imprensa democratica um forte contingente para a sua propaganda subversiva. O Sargento, por exemplo, exclamava com uma audacia que ia a todo o genero de infracções disciplinares:[{61}]

«O exercito aguarda o plebiscito da nação, sem as restricções, as formulas e os sophismas constitucionaes; o plebiscito dos cidadãos livres e honrados na urna livre e honrada; o plebiscito de protesto e da representação nos comicios; ou o plebiscito da revolução nas barricadas.