Restava encontrar quem reunisse á sua volta, e os estimulasse, os elementos de lucta que se offereciam constantemente á redacção da Republica Portugueza. Lançou-se os olhos sobre a figura[{64}] gigantesca de Santos Cardoso e o famoso director d'um semanario de combate—que se propunha «pôr as calvas a descoberto»—embora soffrendo d'uma reputação pouco cuidada, appareceu immediatamente como o homem de acção capaz de aggremiar os officiaes inferiores da guarnição do Porto que se entregavam á causa da revolta. E assim succedeu. A casa de Santos Cardoso passou a ser o centro da conspiração dos sargentos. Mas o director da Justiça Portugueza, não contente com isso, quiz ir mais longe. Principiou a dirigir-se a varios officiaes, solicitando a sua adhesão e a corresponder-se com o directorio, de quem recebia communicações e mais tarde lhe conferiu um voto de confiança.
Em 17 de setembro, deu-se no Porto a unica manifestação tumultuosa que precedeu na capital do Norte a revolta de 31 de janeiro. A sua iniciativa partiu d'um grupo de estudantes, entre os quaes se contavam Alberto de Oliveira e Eduardo Arttayette. Começou no café Suisso, na praça de D. Pedro. Pouco antes, tinham sido queimados á porta do estabelecimento varios jornaes do governo—como protesto contra a apresentação do tratado de 20 de agosto—e davam-se vivas á Patria e morras á Inglaterra, quando entrou no café o antigo republicano Felizardo de Lima. Resoou uma enthusiastica salva de palmas, o estudante Ernesto de Vasconcellos fez um discurso caloroso e alguem soltou este grito:
—Para a rua!
Os manifestantes sahiram em massa do estabelecimento e encaminharam-se para a rua dos Clerigos, tendo á frente, entre outros, João Chagas e o dr. Julio de Mattos. O cortejo comprehendia individuos de todas as classes sociaes e atroava os ares com vivas, morras e ruidosas salvas de palmas.[{65}] Dos Clerigos, os manifestantes foram á Cordoaria. Depois, em frente da Relação, o estudante Eduardo de Sousa fez um discurso e o cortejo encaminhou-se para a rua das Taypas, produzindo novas e estrepitosas demonstrações deante do quartel de caçadores 9. Á porta e ás janellas do quartel appareceram muitas praças agitando os bonnets. Da rua das Taypas, os manifestantes dirigiram-se á rua do Triumpho, entoando a Marselheza e a Portugueza, então muito em voga. Em frente do quartel de infantaria 10 reproduziram-se os applausos ao exercito e o cortejo seguiu para a rua do Pombal, parando junto d'uma das casas d'essa rua a acclamar o dr. Alexandre Braga, pae do illustre causidico do mesmo nome. Alexandre Braga, assomando a uma janella, falou ao povo, affirmando-lhe estar orgulhoso por encontrar nos moradores do Porto a sua altiva e tradiccional energia.
A manifestação seguiu depois ao campo de Santo Ovidio, parando em varios pontos do percurso para ouvir improvisados oradores. Um d'elles disse:
—O Porto precisa provar que ainda não perdeu o segredo das revoluções.
No campo de Santo Ovidio, as demonstrações patrioticas attingiram o delirio. Alguns officiaes de infantaria 18 vieram até junto da multidão pedir-lhe cordura. A seguir, a manifestação desceu pela rua do Almada e, voltando á Cordoaria, passou pelo quartel da guarda municipal. Immediatamente sahiu d'ali uma força de cavallaria e, carregando sobre a multidão, que se refugiou no jardim, dispersou-a. Alguns individuos responderam á pedrada, houve gritos subversivos e na refrega um estudante ficou ferido nas costas. Reconcentrando-se, os manifestantes desceram á rua dos Clerigos e vieram para a praça de D. Pedro. Ahi, os soldados da guarda municipal, cravando as esporas nos cavallos, carregaram[{66}] novamente sobre o povo, acutilando-o a torto e a direito, mettendo toda a gente debaixo das patas dos animaes, varrendo não só a praça mas as ruas circumvisinhas e ferindo e prostrando grande numero de pessoas. Os cafés do local foram logo fechados por ordem da policia. Muitos feridos receberam curativo no hospital da Misericordia. No dia immediato, a cidade reentrou no socego habitual; mas todos esses incidentes que acabamos de relatar foram a origem d'uma nova excitação que aggravou «a que já fundamente lavrava e havia de resolver-se no movimento de 31 de janeiro».
Entretanto, os trabalhos para a organisação do complot progrediam a olhos vistos. Os organisadores já contavam com o concurso de varios officiaes e porque alguns d'elles tinham apparecido nas redacções dos jornaes republicanos, decididos, pelo menos na apparencia, a contribuir para a derrocada da monarchia. E se é certo que no momento em que rebentou a revolta, apenas tres d'elles conseguiram justa evidencia, a verdade é que durante o periodo preparatorio da conspiração o numero de officiaes que n'elle intervieram contavam-se por dezenas. Cada corpo da guarnição do Porto, sem exclusão da guarda municipal, dava, pelo menos, um contingente de tres officiaes, cujos nomes circulavam entre os conspiradores e eram quasi do dominio publico. Os mais graduados eram capitães. Por outro lado, nas provincias, onde Alves da Veiga organisara comités civis e militares, estes garantiam-lhe a sua plena adhesão. O commandante d'uma das forças aquarteladas no Porto compromettia-se a adherir ao movimento «caso não recebesse ordem em contrario do quartel general». Santos Cardoso affirmava a todo o momento que o major Graça, da guarda municipal, e que mais tarde havia de desempenhar um papel decisivo na[{67}] insurreição, mas para a suffocar, estava ao lado dos revoltosos.
Nos quarteis, entre os officiaes, era corrente que se conspirava. As noticias do facto transpiravam dia a dia e invadiam abertamente a opinião. Nos cafés do Porto não se falava n'outra cousa e os agitadores não se occultavam ao solicitar para a causa a adhesão de novos elementos. «Crescia-se em audacia. Todos suppunham e se convenciam que caminhavam realmente para um exito seguro». João Chagas, já na cadeia da Relação, a cumprir a sentença imposta por um delicto de imprensa, escrevia n'um artigo inserto na Republica Portugueza:
«Estou convencido a serio, porque pertenço ao grande numero dos indisciplinados republicanos que querem a Republica—de que uma revolução se fará dentro em breve, a mais nobre, a mais generosa, a mais sympathica de quantas revoluções tem tentado um povo offendido, em nome da sua dignidade e da sua honra.