—Isso é indecente!... é de canalhas!

A opposição recrudesceu na gritaria e o tumulto generalisou-se. Serpa Pinto, que era deputado governamental por Lisboa, subindo a uma coxia, interveiu, clamando com intimativa:

—Nem mais uma palavra aqui, nem mais um pio!

—O que? O que diz? perguntou-lhe o padre Alfredo Brandão.[{77}]

Serpa Pinto replicou:

—Nem mais um pio, sou eu que o digo.

O reverendo agarrou então o heroe pelas orelhas, sujeitando-o nos seus dedos de ferro e a desordem tomou por momentos proporções inenarraveis. Restabelecida a calma, o tratado foi enviado ás commissões incumbidas de lhe dar parecer. Naufragara decisivamente por effeito do tumulto parlamentar.

Ao cahir da tarde, esse tumulto repercutiu-se, sangrento, nas ruas de Lisboa. O povo, que se agglomerara durante o dia no largo das Côrtes, encaminhou-se ao terminar a sessão para os lados da Esperança. A policia quiz dispersal-o e effectuou uma prisão que foi mal recebida pela grande massa. Tanto bastou para que os guardas cahissem á cutilada sobre os populares, travando-se lucta renhida, pois a multidão resistiu corajosamente á ferocidade dos janizaros. A policia, por fim, refugiou-se na esquadra de S. Bento, em frente das grades do largo das Côrtes e d'ali disparou os revolvers sobre o povo, ferindo alguns individuos e matando o operario fundidor Carlos Franco (Antonio Pardal). O cadaver do infeliz foi transportado á casa mortuaria da Misericordia e o povo acompanhou-o em cortejo dorido, convidando toda a gente que encontrava no percurso a descobrir-se ante o «martyr sacrificado ás iras governamentaes».

No dia seguinte declarava-se a crise ministerial. Por espaço de vinte e sete dias, a corôa recorreu a todos os expedientes afim de constituir o novo gabinete. Pretendia-se que o momento era azado para experimentar os politicos que não pertenciam á rotação constitucional. De Roma veiu a toda a pressa o sr. Martens Ferrão, mas nada conseguiu fazer. A situação era grave, confessavam-n'o os[{78}] proprios jornaes monarchicos. «Estamos á mercê d'um movimento popular, que pode rebentar d'um instante para outro e porque a irritação publica augmenta a olhos vistos». Chegou-se a aventar a subida ao poder d'um ministerio de concentração, de que fizessem parte representantes do partido republicano. A propria imprensa democratica quasi que intimava os seus adeptos a tomarem conta das pastas vagas. No estrangeiro a Republica Portugueza annunciava-se para breve como um facto previsto, indiscutivel.

A 18 de setembro repetiram-se os conflictos populares. Apoz um incidente motivado pela policia, no largo de Camões, de dois garotitos inoffensivos, uma força da guarda municipal parou em frente do Café Martinho, onde abancavam estudantes, jornalistas, militares, deputados, gente, emfim de todas as classes, e sem previo aviso desfechou sobre aquella mole desarmada, causando um mixto de panico e de colerico assombro nas victimas de semelhante surpreza. Depois, a mesma força andou em correrias selvagens pela avenida da Liberdade e arterias proximas, espancando quem encontrava desprevenido. Quer dizer: apesar de demissionario o gabinete regenerador, os serventuarios do regimen recorriam ao emprego da brutalidade e da selvageria para aterrorisar o povo e impedir o mais ligeiro gesto de censura ao regimen.