«Depôz o taco e desceram ao primeiro andar. N'um pequeno gabinete interior, cuja forma se approximava do symbolico triangulo, encontravam-se, cada um sentado á sua meza, Santos Cardoso e o dr. Alves da Veiga. Em pé, e como esperando ordens, estava um homem ainda novo, pequeno bigode, quasi um buço sombreando-lhe o labio, grandes olhos vivos que pareciam prestes a sahir das orbitas, estatura menos que meã, largos hombros,[{90}] busto amplo, poisando em pernas robustas; era Annibal Cunha, então cabo de infantaria 18, estudante da Escola Polytechnica. O dr. Alves da Veiga estava com um lapis pondo signaes em frente dos nomes registados no Almanach Commercial e designados sob a rubrica—Regimento de infantaria n.º 10.

«—É certo, perguntou Manuel Coelho, o que por ahi corre, da projectada revolução para esta madrugada?

«Sim, era certo; não tinha podido ser de outro modo. Santos Cardoso, do lado, affirmou com superioridade:

«—Estou a fazer os avisos.

«Com effeito, em cartões de visita, com o seu nome, escrevia—pede a V. para comparecer ás 3 da madrugada no campo da Regeneração. E mettia depois esses cartões em envelopes nos quaes escrevia o nome d'um official, entregando-os a Annibal Cunha.

«O tenente Manuel Coelho retirou-se preoccupado. As circumstancias não eram de natureza a fazer-lhe acreditar n'um triumpho. Todavia, era forçoso acceitar os factos como elles se apresentavam. Era tarde para discutir e inopportuno desobedecer».

Emquanto no Gremio Independencia se passava isto que acabamos de transcrever, varios republicanos em destaque, reunidos n'um gabinete do Café Suisso, preparavam o manifesto que desde o inicio da revolta seria lançado: Aos camaradas do Norte e Sul de Portugal; aos cidadãos do Porto; aos cidadãos portuguezes! Esse manifesto, composto e impresso na typographia da Republica Portugueza—e cujos exemplares foram destruidos ao ser um facto a derrota dos insurrectos—principiava assim:[{91}]

«A força militar do Porto acaba de dar por findo o reinado do sr. D. Carlos de Bragança. Proclamou a Republica. Não se trata d'uma simples, d'uma transitoria revolta. Foi uma revolução que se fez».

Expunha a seguir, a traços largos, a situação do paiz, situação aviltante, deshonrosa, receiante. Era um documento em que cada um dos convivas d'essa historica ceia no Café Suisso puzera a sua «nota pessoal, philosophica, ou anedoctica» e que surgira dos commentarios calorosos, apaixonados, sobre o resultado do movimento que não tardaria a rebentar.

Mas, emquanto os conspiradores davam a ultima demão aos preparativos da revolta, as auctoridades civis e militares tomavam conhecimento d'uma parte do plano concebido e concertavam os meios de o inutilisar. Ás 7 da noite de 30, um amigo do governador civil, Joaquim Taibner de Moraes, tendo ouvido a dois sargentos que infantaria 18 se insurreccionaria na madrugada de 31 «por causa da transferencia d'um sargento ajudante», foi avisal-o do caso e aquella auctoridade dirigiu-se immediatamente ao quartel do Carmo, a prevenir o commandante da guarda municipal.