«Punge-me a triste situação em que se acham os revoltosos do 31 de Janeiro. Aos presos apenas é dada uma triste açorda; não teem cama nem uma enxerga ou maca, nem uma pouca de palha em que se deitem, nem uma manta em que se embrulhem. Os que dispõem d'alguns recursos mandam ir das suas casas roupas e enxergas, mas os restantes, que são o maior numero, estão dormindo nas tabuas nuas, tiritando e morrendo com frio.»

Pelo que respeita á assistencia judiciaria foram os revoltosos mais felizes. O curso do 5.º anno da Faculdade de Direito, n'um impulso de vehemente generosidade, offereceu-se em massa para defender os réus, explicando, porém, pela bocca do seu camarada dr. Lomelino de Freitas—o porta-voz do bizarro offerecimento—que «a sua attitude não implicava de modo algum profissão de fé politica nem approvação ou desapprovação dos acontecimentos.»

Os republicanos que tinham conseguido abrigar-se em Hespanha, esses, depois de socorridos pelo governo do paiz visinho, haviam recebido ordem de se afastar da fronteira, internando-se—exactamente o contrario do que succedeu mais tarde, estando no poder o sr. Canalejas e tentando o ex-capitão[{149}] de artilharia Paiva Couceiro restaurar a monarchia brigantina.

A situação, em resumo, tornara-se difficil e penosa para todos os que, não partilhando da subserviencia incondicional ao regimen monarchico, se viam forçados a procurar no isolamento ou no exilio a tranquilidade que o mesmo regimen lhes negava. O governo, no proposito firme de cortar as azas á mais insignificante velleidade de resistencia, dissolvia os clubs republicanos e punha a guarda municipal constantemente de prevenção. E a sua furia contra as aggremiações democraticas attingiu taes proporções que só n'um dia mandou fechar quatorze das que então existiam em Lisboa.

CAPITULO XXI

A serenidade d'uns e o desalento de muitos

Chegado o momento da justiça militar pedir contas dos seus actos aos individuos presos por effeito da revolta, houve o maximo cuidado, nas regiões officiaes, em impedir que os depoimentos dos principaes culpados salientassem o condemnavel procedimento de varias personalidades consideradas sustentaculos do throno. Procurou-se assim dar ao grande publico, á nação inteira e até ao estrangeiro, a impressão falsissima de que a revolta de 31 de Janeiro brotára apenas dos cerebros de meia duzia de tresloucados, creaturas apagadas e de nullo valor social, sem ligação com outros elementos de superior importancia. Ao mesmo tempo, a imprensa monarchica tentou insinuar, falsamente tambem, que a maioria dos individuos presos como revolucionarios experimentára, ao embarcar nos navios-prisões, o arrependimento do seu[{150}] gesto nobre e patriotico e só anceiava por alijar as responsabilidades que lhe cabiam á face das leis.

Se é certo que no decorrer da instrucção do processo e mesmo durante o julgamento em conselho de guerra alguns d'esses homens mostraram falhas de animo e de coragem, devidas essencialmente á torturante atmosphera moral que os agentes da monarchia lhes tinham creado, muitos houve—e esses constituiram o maior numero—que evidenciaram não só incomparavel dignidade como uma presença de espirito, uma serenidade verdadeiramente heroicas.

João Chagas, por exemplo, conservou uma placidez digna de registo. Dil-o um jornal da epoca:

«O brilhante escriptor não afasta de si todas as responsabilidades nem as assume todas. Acceita as que tem e não as declina, antes entende que deve ufanar-se d'ellas. Essas responsabilidades versam principalmente sobre o que elle escreveu e sobre o que se publicou no jornal que dirigia: a Republica Portugueza».