O governo João Franco sabia perfeitamente que na conjura entravam tropa e a classe civil, que, se a primeira estava armada, a segunda não sahiria á rua desprevenida e que a monarchia vivia sobre a ameaça constante da fornalha republicana, para a qual a dictadura deitara o melhor do seu combustivel.

Mas se o governo João Franco sabia tudo isto que o levava a acautelar-se o melhor possivel contra a probabilidade de gravissimos acontecimentos, ignorava, por outro lado, a fé que dominava o povo alliciado para a revolta. O governo João Franco não fazia caso nenhum d'esse povo, calculando erradamente que a massa soberana e anonyma só se moveria tendo á frente os seus grandes idolos partidarios. Ignorava absolutamente a importancia e a valentia d'essa massa e de quanto ella é capaz, lançada decididamente no caminho da reacção ao despotismo. O povo sem Antonio José, João Chagas, etc.—pensava o dictador—não se atreve a protestar com as armas na mão. Uma vez presos esses homens, os revolucionarios civis absteem-se da lucta e ficam só em campo os militares, que uma serie de medidas urgentes e rigorosas recolhe egualmente á inacção e ao silencio. Assim pensava o governo João Franco alguns dias antes do 28 de janeiro e assim tinha pensado o juiz de instrucção criminal, na parte referente a fabricantes de bombas, quando a explosão da rua do Carrião lhe entrou pela porta dentro e desauctorisou, por completo, a famosa lista negra do Cyro. Um e outro viviam redondamente enganados.

[CAPITULO V]

[Marca-se a revolta para as 4 da tarde do dia 28]

A prisão do dr. Antonio José de Almeida contribuiu bastante para que a febre revolucionaria augmentasse de modo consideravel. O dr. Affonso Costa, que, absorvido pelo processo Djalme, andava um tanto afastado da preparação da conjura, voltou a ella ainda com mais ardor. Os conspiradores passaram a reunir-se n'uma casa da rua do Desterro, pertencente ao sr. Luiz Grandella, fez-se nova acquisição de armamento (parte d'elle fornecida pelos dissidentes) ultimaram-se as disposições de ataque e de conquista e a data de 28 passou a ser mais anciosamente esperada do que as que a tinham precedido na agenda dos revoltosos. O comité dirigente dos trabalhos era então composto de Affonso Costa, visconde da Ribeira Brava, Alvaro Pope, Marinha de Campos, Ernesto Pope e Arthur Cohen. Á casa da rua do Desterro foram dezenas e dezenas de pessoas receber armamento, instrucções, etc. A senha de entrada era Jasmim.

Não é facil, por variadas razões, reproduzir, na actualidade e na integra, o plano do movimento. Já decorreram sobre elle alguns annos e estamos certos de que n'esse projecto muita coisa havia que, a ser cumprida rigorosamente, resultaria em fraco beneficio para o exito do complot. Na revolta de 4 e 5 de outubro cremos mesmo que se emendou a mão em varios pontos considerados essenciaes no plano do 28 de janeiro. A experiencia ainda é, afinal, a grande mestra da vida.

Mas se não podemos dar muitos pormenores sobre o projecto da revolta, da qual derivou logicamente o regicídio, é-nos licito, no emtanto, fixar aquellas das suas bases que são do conhecimento da maioria dos implicados na conspiração. Em primeiro logar, o exercito de terra e mar só se sublevaria depois de vêr feitos certos signaes que lhe communicariam a prisão do dictador João Franco. Quer dizer: a grande orchestra do complot não devia principiar o concerto sem que a batuta do regente se movesse a romper a marcha...

Teixeira de Souza

A prisão do dictador devia ser levada a effeito por um grupo civil entre as 4 e as 6 da tarde, quando elle, sahindo de casa, no alto da Avenida, se dirigisse para o Terreiro do Paço. Preso, conduzil-o-hiam para bordo d'um vapor de pesca, o Dinorah, d'onde o transportariam depois para qualquer navio de guerra revoltado. Entretanto, Machado dos Santos e Serejo Junior assaltariam o corpo de marinheiros; Soares Andréa tomaría o Arsenal de Marinha, auxiliado pela respectiva guarda e um grupo civil; Candido dos Reis iria a bordo do S. Gabriel, onde o 1.º tenente Branco Martins teria á sua disposição grande parte da guarnição do navio e muitos milhares de cartuchos; o visconde da Ribeira Brava, com um grupo civil bem municiado, occuparia o Arco da Rua Augusta e todas as platibandas dos ministerios que dominam as ruas da Prata, Augusta e Ouro e embocaduras das ruas da Alfandega e Arsenal.