No local do crime, procedeu com o mais completo alheiamento da gravidade das circumstancias. Subiu a escada do predio suspeito e teria ido até ao quarto de João Borges sem dar por coisa alguma, quando o Cyro lhe indicou o criminoso, que tambem caminhava em direcção ao aposento, placido, sorridente, com aquelle ar de desimportado que tão nitidamente o caracterisa. O juiz mandou-o prender e, assim que se encontrou dentro do deposito, olhou em volta e teve um gesto de receio. As bombas accumulavam-se em grande quantidade—eram ás duzias. Mas o João Borges, que lhe seguia ironico os movimentos, apressou-se a socegal-o:
—Não tenha medo... estão descarregadas.
O mais modesto dos policias teria desconfiado n'esta altura que o deposito dos explosivos tentava liquidal-o, deixando que elle proprio provocasse a acção destruidora d'um d'esses engenhos. Mas o juiz não pensou em tal. Para provar que era homem sem medo, sorriu-se como o João Borges e, pegando n'uma bomba, revirou-a cuidadosamente nos dedos. Depois ainda fez umas considerações de caracter philosophico sobre a propaganda libertaria que o Cyro, valha a verdade, não percebeu, e sahiu da rua dos Correeiros para se internar no seu gabinete da Bastilha, a reflectir maduramente na descoberta, que, segundo confessou logo no dia seguinte, lhe fôra indicada pelo presidente do conselho, pelo chefe do governo.
A noticia da diligencia espalhou-se ao começo da noite por uma fórma extraordinaria. A seguir á prisão de João Borges, a policia fez outras capturas, quasi todas no mesmo local da primeira, e a Bastilha principiou a trabalhar, avida e tenazmente, na descoberta dos cumplices do proprietario de tanto cylindro metallico destruidor. Para os que estavam no segredo do caso, a prisão de João Borges era uma consequencia natural da sua insouciance. Desimportado como sempre fôra, admirava até que ha mais tempo a policia o não tivesse incommodado e chamado a capitulo. Mas, para a maioria, a diligencia policial envolvia um ponto de interrogação que a carta n'outro logar reproduzida assignala por maneira inilludivel.
As forças revolucionarias na Rotunda
No domingo á noite, nos centros de cavaco, o caso foi discutidissimo. E como o juiz, n'uma nota para a imprensa, affirmasse que João Borges lhe confessara ter fabricado explosivos para os utilisar logo que ao governo Teixeira de Sousa succedesse um governo reaccionario, estabeleceu-se immediatamente uma corrente de opinião que um dos commentadores eventuaes do caso resumia d'este modo:
—A scena passou-se assim... O Teixeira de Sousa, por intermedio do Alpoim e este por intermedio de um dos seus antigos companheiros de lucta no 28 de janeiro, conseguiu que o João Borges, de boa fé, arranjasse as bombas. Logo que soube que ellas estavam prestes a servir, denunciou o fabricante ao juiz de instrução e com a declaração attribuida ao João Borges de que as bombas só rebentariam sob as patas de um ministerio reaccionario, faz o seu jogo no paço e consegue facilmente convencer o rei D. Manuel de que, emquanto elle estiver no poder, nada tem a receiar por parte dos elementos mais avançados;
Outra versão dava o João Borges identificado com a policia para armar uma pavorosa e d'essa, por influencia de diversos libertarios, se fez echo a maioria dos jornaes. Mas em todas ellas surgia sempre esta pergunta maliciosa que, no simples enunciado, lançava immenso veneno nas intenções do revolucionario preso:
—Quem lhe deu o dinheiro para o fabrico das bombas? Aquillo custa caro... O João Borges não tem cheta...