O acampamento na Rotunda

Afastados de Lisboa Antonio José d'Almeida e Luz d'Almeida, encontrando-se Eusebio Leão e Cupertino Ribeiro no estrangeiro, Theophilo Braga e Basilio Telles no norte e José Relvas em Alpiarça entregue aos trabalhos agricolas nas suas propriedades, o Directorio apparece reduzido a José Barbosa e Innocencio Camacho e o Comité executivo de Lisboa a João Chagas e Candido Reis, visto que Affonso Costa tambem sahira da capital por motivo de doença. Mas isso não impede que a propaganda revolucionaria prosiga activamente. Sobe ao poder o ministerio Teixeira de Sousa e esse facto, longe de provocar nos organisadores da revolta pensamentos de tregua, intensifica-lhes a acção.

O pseudo liberalismo do ministerio regenerador, do ultimo ministerio da monarchia, longe de contrariar a propaganda revolucionaria, favorece-a. O sr. Teixeira de Sousa, por mais anodyno que se mostre á população republicana, é sempre um inimigo, porque é sempre um defensor do throno, um serventuario do velho regimen. Ninguem o julga capaz d'um gesto formidavel, que obrigue o monarcha reinante a desprender-se dos braços setinosos da reacção, a libertar-se d'essa influencia perniciosa que o sr. Ferreira do Amaral mezes antes assignalara como emmaranhando a côrte portugueza n'uma teia de fanatismo e despotismo. O sr. Teixeira de Sousa, muito embora reconheça a necessidade de modificar o existente, não é estadista para fazer a Republica. Tem de cuidar, antes de tudo, da sustentação d'uma clientella partidaria, tem de procurar, n'um embate de politica mesquinha, a liquidação absoluta dos seus adversarios monarchicos e não é certamente com o cultivo sincero da massa popular que elle se disporá a investir contra o clericalismo triumphante, a satisfazer as justas aspirações dos liberaes.

Antes de 15 de setembro de 1909, produz-se um facto que determina uma nova poussée do movimento organisador da revolta. Em certa noite, apparecem no Centro de S. Carlos onze tripulantes d'um navio de guerra portuguez, manifestando desejos de falar a qualquer dos membros do Directorio. São recebidos pelos srs. Guilherme de Sousa, vice-presidente do Centro e Cordeiro Junior e Julio Maria de Sousa, da commissão municipal republicana. Um d'esses homens fala sem rebuço: elle e os seus camaradas tencionam insubordinar-se a bordo do D. Carlos, já estudaram e adoptaram um plano de revolta e querem saber se o Directorio lhes sancciona e apoia a tentativa. O sr. Guilherme de Sousa convida-os a voltarem ao Centro no dia immediato e apressa-se a communicar o facto aos dois membros do Directorio que n'essa altura servem assiduamente a Revolução: José Barbosa e Innocencio Camacho.

A principio, um e outro d'esses republicanos receiam que a démarche dos onze marinheiros constitua uma cilada. Mas como não seria de boa pratica abandonal-os inteiramente á execução de qualquer projecto sedicioso e o almirante Candido dos Reis já tinha posto Machado Santos em contacto com os dois membros do Directorio, José Barbosa e Innocencio Camacho resolvem: 1.º attender os marinheiros que expontaneamente veem ao encontro dos seus planos revolucionarios; 2.º pedir a Machado Santos que os assista no contacto com esses patriotas para lhes reconhecer a identidade.

Tomam, para isso, certas medidas de precaução e combinam com o almirante Candido dos Reis o avistarem-se com Machado Santos em determinada noite na praça Luiz de Camões. D'ahi seguirão depois a estabelecer contacto com os marinheiros. Mas para que ninguem suspeite da gravidade da démarche, esse encontro com Machado Santos é feito com o ar desembaraçado de velhos conhecimentos. Machado Santos é acompanhado até o local por Luz d'Almeida para que tanto Innocencio Camacho como José Barbosa reconheçam n'elle o enviado de Candido dos Reis. Os marinheiros que surgem n'essa occasião a insistir n'uma tentativa de revolta já não são apenas os representantes da guarnição do D. Carlos; teem, sim, a delegação das guarnições de todos os navios surtos no Tejo. Da praça Luiz de Camões, Machado Santos, José Barbosa e Innocencio Camacho e os marinheiros seguem para casa d'um d'estes, no Conde Barão. Durante o trajecto, Machado Santos, para obter a certeza de que elle e os dois membros do Directorio não serão victimas d'um guet-apens, interroga habilmente os marinheiros sobre os navios a que pertencem, o armamento de que dispõe cada um dos barcos, etc., e pelas informações colhidas convence-se e convence José Barbosa e Innocencio Camacho de que não ha duvida em tratar lealmente com esses commissionados das forças navaes.

Uma vez entrados na tal casa do Conde Barão e prevenida a hypothese d'uma surpreza policial, os marinheiros expõem o seu plano, accrescentando que o tencionam pôr em execução d'ahi a poucas horas. Contam poder sublevar 1.000 dos seus camaradas: 500 d'elles desembarcarão a um signal dado e apoderar-se-hão do Arsenal do Exercito para terem immediatamente á sua disposição armas e munições. (Diga-se entre parenthesis: ao contrario do que o governo monarchico espalha com insistencia, o comité da Revolução tem a certeza, por informações seguras de officiaes republicanos, de que as armas em deposito no Arsenal não estão provisoriamente inutilisadas, mas possuem os percutores e servem admiravelmente na primeira opportunidade). Os marinheiros contam tambem, para os auxiliar na sua tentativa, com o nucleo de civis formado pela Carbonaria e que comprehende 6.000 homens, antigos soldados e marinheiros, aptos a manejar com acerto uma arma de fogo.

Feito o ataque ao Arsenal, occuparão o palacio das Necessidades e, tomando o rei e a familia como refens, obrigam d'esse modo as forças fieis a conservar-se inactivas. É este o plano dos audaciosos patriotas, que elles desenvolvem perante Machado Santos e os representantes do Directorio com a mesma serena tranquillidade com que outros dos seus camaradas propõem mais tarde a um dos dirigentes republicanos aprisionar o sr. D. Manuel n'uma annunciada visita do soberano ao quartel d'Alcantara. A tentativa, porém, é arriscada e torna-se necessario, para que se não repita uma scena identica á da insubordinação de 1906, evitar que os marinheiros a ponham em pratica, como elles dizem, no curto prazo de vinte e quatro horas. José Barbosa e Innocencio Camacho falam, n'esse sentido, aos briosos rapazes. Machado Santos impõe-se-lhes energicamente e ao cabo de longa discussão os tres obteem a promessa de que o projecto revolucionario será addiado para melhor ensejo, isto é para quando estiverem concluidos os trabalhos encetados sob a égide do Directorio. Mas tomam o compromisso formal de lhes preparar rapidamente o advento da Republica, para que não supportem por muito tempo ainda o regimen de suspeição e de incerteza de que se queixam amargamente. De caminho, allude-se á sabotage como um meio de modificar a situação em que os marinheiros se encontram a bordo e por duas ou tres vezes o Directorio recebe a noticia de que elles a praticam com exito.