1912
EDIÇÃO DA CASA ALFREDO DAVID
ENCADERNADOR
30-32, Rua Serpa Pinto, 34-36
LISBOA
Composto e impresso na Imprensa Libanio da Silva = Travessa do Falla-Só, 24—Lisboa
Indice
- [Falando aos leitores]
- [CAPITULO I—Da perspicacia dos espiões ao serviço do antigo regimen]
- [CAPITULO II—Um «accidente de trabalho» e uma evasão romanesca]
- [CAPITULO III—Os republicanos e os dissidentes organisam o 28 de Janeiro]
- [CAPITULO IV—A policia descobre um dos fios do «complot»]
- [CAPITULO V—Marca-se a revolta para as 4 da tarde do dia 28]
- [CAPITULO VI—A «ratoeira» do elevador da Bibliotheca insuccesso do «complot»]
- [CAPITULO VII—O regicidio—Quem disparou primeiro: Buiça ou Costa?]
- [CAPITULO VIII—Os regicidas calcularam que a Revolução rebentaria imediatamente ao seu acto]
- [CAPITULO IX—As iniciações na carbonaria augmentam consideravelmente]
- [CAPITULO X—Os estudantes militares offerecem o seu concurso á Revolução]
- [CAPITULO XI—Os dynamitistas preparam a «artilharia civil»]
- [CAPITULO XII—As bombas de João Borges eram pagas pela «Joven Portugal»]
- [CAPITULO XIII—O «comité» executivo de Lisboa procede a um inquerito]
- [CAPITULO XIV—Nas barbas da policia realisam-se diversas revistas revolucionarias]
- [CAPITULO XV—Fixa-se a data do movimento e approva-se o plano definitivo]
- [CAPITULO XVI—No momento culminante, o desanimo invade os organisadores da revolta]
- [CAPITULO XVII—Uma parte das forças revolucionarias installa-se na Rotunda]
- [CAPITULO XVIII—Os sargentos de artilharia 1 resolvem continuar a lucta]
- [CAPITULO XIX—O desespero de Candido dos Reis condul-o ao suicidio]
- [CAPITULO XX—O rei Manuel abandona o palacio das Necessidades]
- [CAPITULO XXI—A artilharia revolucionaria repelle o ataque das baterias de Queluz]
- [CAPITULO XXII—Os ministros dispersam-se e buscam abrigo em diversas casas]
- [CAPITULO XXIII—Proclama-se a Republica no edificio da Camara Municipal]
Falando aos leitores
De todos os relatos que vieram á tona da imprensa portugueza sobre episodios do movimento que implantou a Republica no nosso paiz, conclue-se nitidamente esta coisa curiosa: raros foram os pontos do programma revolucionario que se cumpriram á risca. No emtanto, o movimento triumphou. As longas horas de espectativa dolorosa, que uns passaram a desafiar a morte e outros a contas com a torturante ignorancia da verdade, desfecharam na manhã de 5 de outubro em delirante estralejar da victoria—alcançada simultaneamente pelo esforço heroico de meia duzia de patriotas e a inacção de centenares de descrentes. O movimento triumphou apesar de tudo: da ausencia, no momento supremo, de elementos de coordenação revolucionaria, do desanimo que bem cedo invadiu quasi a totalidade dos dirigentes da campanha, da falta sensivel de armamento destinado aos carbonários e outros civis.
Na madrugada de 4 de outubro, á hora em que um troço de populares e de soldados arrastava pela Rotunda o enthusiasmo dos primeiros momentos de combate bem succedido, ainda n'uma casa dos lados da Sé duas creaturas devotadissimas fabricavam bombas que um emissario da Revolução d'ahi a pouco devia ir buscar. Mas o emissario não appareceu e um dos «fabricantes» sahiu á rua a inteirar-se da situação. Cahiu logo nas garras da policia... E como este, muitos outros incidentes occorreram na madrugada celebre, mais proprios, sem duvida, a embaraçar a eclosão do triumpho do que a facilital-a.
É que se do lado dos revolucionarios havia quem supportasse, com fé inquebrantavel, todos os obstaculos—e não poucos—que surgiram ante o seu designio, do lado do inimigo a convicção da perda irreparavel da monarchia enraizara-se profundamente, abalando, com diminutas excepções, as consciencias as mais empedernidas. Parece que, mal soaram no silencio tragico da noite os primeiros tiros de canhão, a maioria das creaturas, ás quaes incumbia a missão de luctar pelo regimen extincto, teve a visão clara da inutilidade do seu esforço[1].
A influencia moral desprendida do acto revolucionario, já em precipitado desenrolar, ajudou muito a conquista da liberdade. A presença da artilharia no campo revoltoso, a immediata adhesão do «Adamastor» e do «S. Rafael» ao movimento, o bombardeamento do paço, a fuga do rei e a derrota das baterias de Queluz contribuiram innegavelmente, e em larga escala, para assegurar a victoria da Republica; mas, a par d'esses factores, não é licito esquecer a molleza, a inercia dos que constituiam o inimigo, uma e outra derivadas d'um scepticismo que a monarchia, sem dar por isso, inspirava desde muito aos proprios que a serviam.