Nas horas do combate encolheram-se a tiritar, calculando que a Revolução os arrastaria pelos cabellos a uma chacina purificadora ou os penduraria n'um candieiro. E, afinal, a Revolução não fez nada d'isso. A Revolução, assim como teve um curto periodo de tiroteio sangrento, tambem se caracterisou por diminutos instantes de delirio enthusiastico, mas delirio inoffensivo, expansão de alegria desinteressada e generosa. Ninguem assassinou, ninguem saqueou. A propria artilharia civil, dispondo d'uma poderosa força destruidora, não commetteu excessos, não praticou represalias. Applicou-se exclusivamente a atacar as forças do antigo regimen, lançando as suas granadas de mão sobre os cavalleiros monarchicos, dispersando-os, derrotando-os mais pelo panico produzido pelo ruido da explosão do que pelos effeitos contundentes da metralha.
Um episodio succedido na tarde do dia 4 de outubro dá bem a medida do espirito de honestidade com que os revolucionarios sahiram então á rua a combater contra a monarchia:
N'uma das avenidas de Lisboa modernamente rasgadas, á hora em que a artilharia da Rotunda despejava sobre a de Queluz os seus tiros certeiros... Um leiteiro que enfiava transido de medo para o portal de uma casa rica é abordado por um popular armado que o intima a vender-lhe uma porção de leite. O aspecto do revolucionario é de metter pavor: na face ennegrecida lampeja uma decisão inquebrantavel; n'uma das mãos agita uma pistola de grandes dimensões. O leiteiro estaca a tremer, disposto já a abandonar toda a mercadoria, comtanto que lhe poupem a vida. O revolucionario manda encher uma medida de lata, mas, quando se dispõe a beber por ella o liquido que o ha de reconfortar, o leiteiro observa-lhe que a policia não consente tal coisa, que isso é... contra a postura.
—A policia... Mas onde está ella? replica o revolucionario n'uma gargalhada escarninha.
E d'um trago sorve o liquido. O outro, morto por se safar, assim que lhe restituem a medida de lata, prepara-se para uma correria desenfreada. É de agradecer ao Deus creador o libertar-se do transe afflictivo apenas com o dispendio d'uns decilitros de leite... Mas o revolucionario não o consente. E, empunhando de novo a pistola com gesto ameaçador, obriga-o a acceitar em pagamento umas moedas de cobre. Comprehende-se: esse homem não fazia a Revolução para perpetuar os crimes da monarchia.
Quantos dos servidores do antigo regimen não procederam de modo diverso? Quantos não beberam o leite, não o pagaram e até metteram na cadeia os respectivos vendedores só pelo facto de lhes exigirem o pagamento? Quantos?...
[Indice]
DO TEXTO
- [Falando aos leitores]
- [CAPITULO I—Da perspicacia dos espiões ao serviço do antigo regimen]
- [CAPITULO II—Um «accidente de trabalho» e uma evasão romanesca]
- [CAPITULO III—Os republicanos e os dissidentes organisam o 28 de Janeiro]
- [CAPITULO IV—A policia descobre um dos fios do «complot»]
- [CAPITULO V—Marca-se a revolta para as 4 da tarde do dia 28]
- [CAPITULO VI—A «ratoeira» do elevador da Bibliotheca insuccesso do «complot»]
- [CAPITULO VII—O regicidio—Quem disparou primeiro: Buiça ou Costa?]
- [CAPITULO VIII—Os regicidas calcularam que a Revolução rebentaria imediatamente ao seu acto]
- [CAPITULO IX—As iniciações na carbonaria augmentam consideravelmente]
- [CAPITULO X—Os estudantes militares offerecem o seu concurso á Revolução]
- [CAPITULO XI—Os dynamitistas preparam a «artilharia civil»]
- [CAPITULO XII—As bombas de João Borges eram pagas pela «Joven Portugal»]
- [CAPITULO XIII—O «comité» executivo de Lisboa procede a um inquerito]
- [CAPITULO XIV—Nas barbas da policia realisam-se diversas revistas revolucionarias]
- [CAPITULO XV—Fixa-se a data do movimento e approva-se o plano definitivo]
- [CAPITULO XVI—No momento culminante, o desanimo invade os organisadores da revolta]
- [CAPITULO XVII—Uma parte das forças revolucionarias installa-se na Rotunda]
- [CAPITULO XVIII—Os sargentos de artilharia 1 resolvem continuar a lucta]
- [CAPITULO XIX—O desespero de Candido dos Reis condul-o ao suicidio]
- [CAPITULO XX—O rei Manuel abandona o palacio das Necessidades]
- [CAPITULO XXI—A artilharia revolucionaria repelle o ataque das baterias de Queluz]
- [CAPITULO XXII—Os ministros dispersam-se e buscam abrigo em diversas casas]
- [CAPITULO XXIII—Proclama-se a Republica no edificio da Camara Municipal]