Ora eu, meus senhores, sou tambem eleitor e recenseado na freguezia de S. Maria dos Anjos; não estou filiado em partido militante da actual politica, porque sou, como os srs. José Narciso e Santa Clara: legitimista, genuinamente legitimista, por convicção e por tradição. Acceitar, n’estas condições, a faculdade do voto equivaleria a approvar e reconhecer, tacitamente, a legalidade dos poderes que nos regem e, procedendo assim, faltaria ás minhas convicções e ao respeito que tenho e devo ao meu Rei, a Sua Magestade Fidelissima o Senhor Dom Miguel de Bragança, que Deus guarde.
Estou, portanto, n’um campo perfeitamente neutral e insuspeito, ao abrigo do tumultuar das paixões partidarias, n’uma região serena de paz e livre reflexão e posso, n’estas circumstancias, dar a minha opinião sobre a escolha dos eleitores, depois da rigorosa apreciação que fiz dos argumentos apresentados pelos dois partidos.
Vou ter a honra de a apresentar a Vossas Excellencias.
Na futura Camara electiva devem reunir-se cento e tantos deputados. N’esse numero entram estrellas de primeira grandeza na constellação brilhantissima da nossa politica. Ha talentos de raça; espiritos previlegiados, que honram e ennobrecem o paiz; ha oradores fluentissimos como os srs. Oliveira Mattos e Visconde da Torre; ha polemistas de irresistivel logica de argumentação, como os srs. Ferreira d’Almeida; ha celebridades em todos os ramos das sciencias e da publica administração.
Pois, meus senhores, com verdade lhes digo, que é a seguinte a minha convicção:—entre todos esses homens, entre todas as individualidades aptas no nosso paiz para as funcções da representação popular, ninguem—absolutamente ninguem—nos poderia satisfazer tanto, comprehender as nossas ideias, adaptar-se melhor á nossa politica, interpretando-a e assimilando-a nas suas aspirações—como Sua Excellencia o sr. Dr. Queiroz Ribeiro.
—Ora essa! (ouço eu bradar aos meus amigos, os srs. Joaquim e Abilio, os mais fogosos caudilhos da politica regeneradora), fará o favor de provar.
A isso vou, meus senhores, e com argumentos leaes, solidos, porque os sustento com a irrefutavel demonstração, que vou estabelecer dentro do campo positivo das sciencias abstractas: a logica e a mathematica.
Vejamos, meus senhores, o que é a Politica em Valença? O que foi, o que é, d’onde vem e para onde vae? Como se poderá e deverá classificar n’uma terra em que, se a gente vae á estação do caminho de ferro assistir á recepção do sr. Marianno de Carvalho, ou do sr. Barjona, ou do sr. Lopo Vaz, ou do sr. José Dias Ferreira, ou do sr. Rodrigues de Freitas, ou do sr. Consiglieri Pedroso, vê sempre na gare—além dos engajadores dos hoteis e do sr. Capellão[36]—as mesmas caras, as mesmas casacas e as mesmas cartolas, que, depois, vão acompanhar Suas Excellencias até Cerveira, com ruidosas e enthusiasticas demonstrações de adhesão e fidelidade partidarias?