Aquella multidão saturava a atmosphera de aromas insupportaveis; distinguiam-se os do bafio, do arroto dyspeptico; este cheiro particular do azebre, do mofo, da catinga, de pé gallego, de coisas lippicas e rançosas, que tresandam a raposinho e a chulé.

No ruido ensurdecedor de tanto grito e de tanta explosão de colera, apenas se percebiam estas palavras:

Mata! Mata o Zinão!

*

O meu cerebro illuminou-se, então, com aquelles vividos clarões das grandes angustias; pinoteavam-me na imaginação, em infernal dança macabra, todas as vibrações das grandes dôres; vergalhadas cyclopicas açoitavam-me as ideias; a alma rebentava-me com explosões terriveis, minada pela robulite do terror; o coração desfibrava-se esphacelado pelas garras do susto; as cellulas nervosas achatavam-se sob a prensa hydraulica do pavor; o cordão espinal estoirava, esticado pelas furias da raiva; as saliencias do corpo sumiam-se arietadas pela allucinação; na trompa de Eustachio trovejavam as maldições; na retina faiscavam punhaes de odio; na pituitaria abriam chagas os atomos do rancôr; as cordas vocaes rebentavam com a tensão da ira; as papillas da derme eram esmagadas pelos martellões da colera; diabos vestidos de vermelho arrancavam-me os cabellos; harpias esgrouviadas furavam-me a cornea; satanazes com rabo reviravam-me as unhas; demonios acephalos rasgavam-me a bocca; morcegos sinistros esfarrapavam-me as carnes; lebreus hydrophobos roiam-me as cannelas; corujas esfomeadas espicaçavam-me as orelhas; chacaes lazarentos mordiam-me as nadegas; corcodilos e jacarandés trituravam-me os ossos.

*

E no meio de toda essa coisa phantastica, apocalyptica, satanica, horripilante, onde havia carcavões, fragoas, tenazes, forcas, venenos de Borgias, estyletes ervados, lanças quichotescas, navalhas de ponta e mola, balas de papel, espadas de pau, caçoletas e obuzes, explosões sulfuradas, bofes de leão, tricornios de gazeta, furores de Ugolino, ciumes de Othello, terrores de Machbet, perfidias de Iago, risos de Voltaire, astucias de Loyola, sarcasmos de Erasmo, pançadas de capoeira, chulipas de fadista, rugidos de Adamastor, pedradas de garoto, cobras e lagartos, viscosidades de lesmas, virus de serpente, commissões de quinzes e de paysanducos, protestos, duellos, policias correccionaes, boquilhas, aguas sebastianicas, beliscões kilometricos, musas hystericas, zoilos epilepticos...

—quando contemplava aquelle horroroso quadro em que, as tintas de Miguel Angelo, o pincel de Rembrandt e a phantasia de Hans Mackart, pintavam a sede de Tantalo, a insaciabilidade de Gargantua, a podridão de Imperia, o odio de D. Bibas, o servilismo do eunucho e o calcanhar d’Achilles,

—entre aquelle côro infernal de uivar de feras, clamar de moiros, ulular de caraibas, guinchar de idiotas, urrar de quadrupedes, pinchar de macacos, zunir de vespas, silvar de cascaveis, ladrar de bulldogs, d’onde apenas se destacava:

Mata! Mata o Zinão!