Quem escreve estas linhas já teve, por duas vezes, a honra de ser convidado para irmão da Santa Casa. Por acaso, aconteceu sempre isso em vesperas de eleições. Mero acaso.
Na ultima lucta eleitoral entrou uma fornada de 60 ou 70 irmãos. Offereciam-se os diplomas com todas as despezas pagas, e depois da eleição houve regabofe de castanhas e vinho branco. O moderno carneiro com batatas ainda não estava inventado.
Foi uma eleição renhida, tenazmente disputada; e, com ropias de parva politiquice, dotou-se a terra com mais uma loja de... barbeiro!
Deus me livre de duvidar, por um momento, dos sentimentos caritativos dos especuladores, quero dizer, dos protectores da Santa Casa.
Mas (pergunta-me um diabo que tenho aqui, ao pé de mim, e que desconfia de tudo), porque será que em todo o anno ninguem se lembra do Hospital para lhe augmentar os rendimentos, ou para alargar a sua acção benefica?
Porque será que esse zelo se não manifesta agora, auxiliando os Provedores nos trabalhos da utilissima instituição que o legado Cruz fundou—o Asylo?
Porque vos não reunis agora em activa propaganda,—oh cafila de pantomineiros!—angariando no Concelho donativos em dinheiro e em materiaes que habilitem a Santa Casa a, quanto antes, poder levantar esse edificio tão util para os infelizes?
—Parece-me (diz o tal diabo) que se a Santa Casa, em vez de ter um capital de cento e tantos contos, em inscripções, escripturas com hypothecas, e fiadores com paes, manos e cunhados, tivesse apenas algumas de X, ninguem lhe disputaria as eleições.
Que diz V. Ex.ª a isto, interrogando a sua consciencia?
Teremos n’este caso Philantropia, Politica, ou... abandalhado Arranjo?