Rasgar as trevas do porvir, prever as luctas e as contrariedades, guiar a incauta Humanidade nas tortuosas sendas a que o Destino a condemna, leval-a pela mão á beira dos abysmos para lhe bradar carinhosamente: não vás além!—é a missão que a Divindade traçou ao Genio, a isto de superior, de maravilhoso, de prophetico, que me distingue do vulgo, que me aparta da plebe, e que dá á minha individualidade, no meio d’este constante marulhar das paixões e da ignorancia humanas, a previdente luz do fanal que, entre escolhos e baixios, guia o amargurado nauta nas cerradas trevas de noite caliginosa.
Transpondo um periodo de dois mil e quatrocentos annos no futuro da Humanidade, eu vou annunciar os perigos amontoados no horisonte dos povos que no seculo XIX d’uma nova era hão de occupar as ignotas regiões, que um grande mar banha e onde os phenicios já estabeleceram dominio e poderio.
Phantasiae, amigos, que viveis commigo n’uma peninsula que, por occulta, o phenicio denominou Spania, e que me ouvis discreteando com os homens politicos d’esse futuro seculo:
Aconselho a alliança das raças latinas. O horisonte da Europa annuncia borrasca.
Ha negrumes para o Norte. Não receeis o teutonico; temei o slavo! Haja outro Metternich para esse inimigo commum.
Bismarck é um imbecil. Com a sua germanisação fez-se testamenteiro de Frederico, o Grande. Crispi é um visionario. Salisbury um bebedo. Sagasta uma nullidade. Zé Luciano um comparsa.
Na Politica internacional o melhor systema é o de Machiavel. Tenho-me dado bem com elle e não quero outro.
Quando, na conferencia de Berlim, me pediram conselho, disse e repeti: vocês reparem no russo!
N’essas regiões do Norte a maré sobe e, qualquer dia, rompem-se os diques.