A podridão e a villania condensam-se nas altas espheras do high-life, nos palacios da City, nos corredores de Windsor Castle, no royal box de Covent Garden, no Pelican Club, no Devonshire Club, no Turf-Club, onde impera, infrene, El-Rei Deboche.

Cá em baixo, labuta e moireja um povo trabalhador e geme um mundo de parias. Nos bairros immundos de Londres, no West-End, no White-Chapel, dormem ao ralento, esfarrapados e nús, centenares de velhos e de creanças.

Agonizando pelas esquinas e escabujando nos monturos, morrem annualmente, de fome, tres a quatro mil pessoas.

Das camadas que trabalham sahiram Shakspeare, Milton, Jenner, Newton, Davy, Graham, Bacon, Locke, Hume, Priestley, Adam Smith, Stephenson, Wollaston, Boyle, Shaftesbury, Harvey, Stuart Mill, Spencer.

Esses homens alguma coisa fizeram em prol da humanidade e da civilização, e não é justo, portanto, que á sua memoria e ao seu nome lancemos o escarro do insulto e o estigma da maldicção.

Odio aos lords! deve ser o nosso grito, porque são elles, e só elles, os nossos espoliadores.

Odio a essa aristocracia abandalhada que estrangula a Irlanda—mancha vergonhosa da civilização europea e que os magarefes da City por vezes transformam em sangrento açougue.

Odio a esses lacaios de libré que nas sessões da Lords’ House vemos erectos, empertigados, orgulhosos, e á noite se curvam sobre os tapetes do brothel—bestiaes, apopleticos, rubros, babados, falling on one’s jaws[58] entre saias almiscaradas e amarellas com o liquido da menorrhéa.

N’esse asqueroso quadro de infamias que em 85 a Pall Mall Gazette desvendou á imprensa europea ha, como actores, lords, só lords—os mesmos canalhas de Cleveland-Street que, ha mezes, uns áltos personagens da côrte protegiam, suffocando a peso de oiro a publicidade das suas novas torpezas. São elles e só elles que fixaram o preço de 15 a 20 libras para as fresh-girlsvirgo intacta—de 13 a 14 annos, que hoje são as 50:000 prostitutas—black army dos trottoirs londrinos.