Cada um tem o seu quarto numerado. Ao levantar-se, Velloso, passa em revista todos os seus affectos e escolhe para o dia.

Não revela preferencias, para não originar baralhas. Ás vezes desapparece da circulação, porque os Papás valencianos e tudenses, aterrados, inquietos, vão ter com o sr. Silva Pereira e exigem-lhe a deportação do incendiario.

Lá vae para Castro Laboreiro. Quando é necessario por cá, basta pronunciar baixinho, esta palavra:—baile. No aureo tempo, em que João Morães era enthusiasta pelas danças e promovia aquellas apatuscadas reuniões-familiares, em que a gente ía á Assemblêa, para apprender a fazer meia, ou para ajudar a dobar maçarocas e novelos ás senhoras—acontecia ás vezes o seguinte:

João Morães lembrava-se d’um baile. Só no seu cerebro se definia essa idea. Matutava sobre o caso. Fechava-se no gabinete e, concentrando todas as suas faculdades, principiava o orçamento.

Calculava e annotava:

Chá (póde ser comprado aos homens do papel, que o vendem a 800, o kilo)$372
Assucar (Metade do pilé e metade do mascavado)$723
Pão para fatias (Cada peça dá 20, cada cornucho dá 12)1$207
Manteiga para as tostas (Vende-a o Coisa a 200, o kilo, com ranço; póde ser misturada)$247
Carqueja e lumes de pau$015
Agua de Colonia para o toilette das damas (1 quartilho, de Tuy)$060
Pó d’arroz (e farinha)$030
Aluguel do Panorama, ao Albino$120
Illuminação (nas escadas póde ser de sebo)1$473
Contracto com 3 cavalheiros para cearem em casa3$900
Roscas de Tuy para os quatrocentos meninos e meninas, que costumam vir aos bailes12$747
Gratificação ás amas, que tomem conta dos que ainda mamem1$500
Piões e faniqueiras para os mais velhinhos se entreterem no salão$140
Musica de Ganfey para tocar á porta o hymno real, quando entrar o Representante do Rei, Nosso Senhor6$000
Gratificação a 4 artilheiros para, armados, guardarem os taboleiros, na passagem do corredor2$000
Brinde ao Aurelio para recitar uma poesia tragica: valor de$700
Idem ao Roldão para marcar as quadrilhas: valor de$720
Gratificação a 6 creados$300

Total 30 mil e tanto. Por cabeça—tanto. João Morães verificava. Tirava a prova dos nove. N’isto, batiam discretamente á porta. João abria e cahia-lhe o Velloso nos braços, offegante, pallido. Vinha do Castro Laboreiro a pé, a cavallo, no comboyo.

Sei que projectas um baile. Ahi tens a minha quota. Risca; e olha lá—oh menino—vê se arranjas isso depressa. Passam-se tão bem aquellas horas...

Este João deve ficar na terra. Deve ser expropriado por utilidade publica. Barcellos, que se arranje lá, como quizer. O Velloso Candido é que para lá não volta. D. Joões temos muitos por cá; agora, candidos, ha só um, que é elle; e esses, é que se apreciam, porque não fazem mal.