Cada um tem o seu quarto numerado. Ao levantar-se, Velloso, passa em revista todos os seus affectos e escolhe para o dia.
Não revela preferencias, para não originar baralhas. Ás vezes desapparece da circulação, porque os Papás valencianos e tudenses, aterrados, inquietos, vão ter com o sr. Silva Pereira e exigem-lhe a deportação do incendiario.
Lá vae para Castro Laboreiro. Quando é necessario por cá, basta pronunciar baixinho, esta palavra:—baile. No aureo tempo, em que João Morães era enthusiasta pelas danças e promovia aquellas apatuscadas reuniões-familiares, em que a gente ía á Assemblêa, para apprender a fazer meia, ou para ajudar a dobar maçarocas e novelos ás senhoras—acontecia ás vezes o seguinte:
João Morães lembrava-se d’um baile. Só no seu cerebro se definia essa idea. Matutava sobre o caso. Fechava-se no gabinete e, concentrando todas as suas faculdades, principiava o orçamento.
Calculava e annotava:
Total 30 mil e tanto. Por cabeça—tanto. João Morães verificava. Tirava a prova dos nove. N’isto, batiam discretamente á porta. João abria e cahia-lhe o Velloso nos braços, offegante, pallido. Vinha do Castro Laboreiro a pé, a cavallo, no comboyo.
—Sei que projectas um baile. Ahi tens a minha quota. Risca; e olha lá—oh menino—vê se arranjas isso depressa. Passam-se tão bem aquellas horas...
Este João deve ficar na terra. Deve ser expropriado por utilidade publica. Barcellos, que se arranje lá, como quizer. O Velloso Candido é que para lá não volta. D. Joões temos muitos por cá; agora, candidos, ha só um, que é elle; e esses, é que se apreciam, porque não fazem mal.