—reprobos, que nem entrada tendes nos templos, onde imaginaes que, por lá estar Christo, se egualam as condições, ignorando que o Christo da missa do meio-dia não é vosso, mas o dos argentarios que, para illudirem a consciencia e satisfazerem as exigencias da vaidade e as apparencias da hypocrisia, lhe dão capas de velludo e corôas de oiro; lhe fazem companhia nas longas noites do inverno, distrahindo-o com essas immoraes bambochatas das Novenas e da Semana Santa, com a somnolenta melopêa da padralhada, com as intrigas e confidencias amorosas, com o cochichar mordaz do beaterio, que entre Torres eburnea e Mater castissima, discute a confecção de um vestido da Torrona, ou do Blanco—e lhe fazem venias, e batem no peito, e andam por ahi, de porta em porta, ostentando cynicamente crenças, que não possuem, crenças, que não comprehendem, a pedir em nome de Christo, que é o symbolo do amor e da humildade, os cinco tostões da subscripção, quando á mesma hora, infelizes, olhaes, soluçando, para a escudella vazia e as creanças vos mordem os peitos, porque já não tendes leite, nem o calor da vida...
Velhos, mulheres e creanças,
escutae:
Ahi tendes esse livro.
Lêde-o, ou dae-o a ler. E se entre os ricos e os felizes da vida esses periodos não se crystallizarem no oiro da esmola—encontrareis ahi lenitivo para os vossos infortunios, porque ficareis sabendo, que nas regiões, onde só imaginaes venturas, oiro e risos tambem ha, como entre vós, pustulas—da vaidade, aleijões—do ridiculo, febres—da ambição, contracções—da hypocrisia, doenças e disformidades mais dolorosas e repugnantes do que as vossas, porque não inspiram compaixão nem dôr, mas, apenas, tedio, ironia e a gargalhada.
I
O Microbio[1]
Tivemos á porta o Microbio.
Eu já o esperava.