Dizem-me que Vossa Excellencia está prestes a deixar-nos, para ir fulgurar na brilhante constellação dos nossos generaes; e não quero que isso succeda, sem apresentar a Vossa Excellencia a homenagem sincera do meu respeito e enthusiastica veneração, porque considero Vossa Excellencia, como um dos melhores Governadores, a quem, para felicidade d’estes povos e d’estes reinos, Sua Magestade tem havido por bem confiar o governo d’esta Praça.
Na pleiade de homens illustres que, ha doze annos para cá, teem governado Valença, Vossa Excellencia destaca-se pelo seu senso, illustração, excessiva modestia e desprendimento das glorias do mundo, que tão tentadoras e offuscantes são, quando, após annos de lucta, de vigilias, de laboriosas lucubrações de espirito, de penosissimo labutar das funcções cerebraes com senos, cosenos, raizes quadradas de a e ditas cubicas de b, chega a gente a alcandorar-se nos inaccessiveis pinaculos d’uma tão elevada posição social.
Os dois illustres antecessores, que precederam Vossa Excellencia, eram e são muito boas pessoas; mas alargavam demasiadamente a esphera das dependencias da Praça, de fórma que faziam incluir no seu Estado-maior uma certa pessoa, clara já, talvez, á perspicacia de Vossa Excellencia—pessoa que, até alli, tinha a seu cargo o caridoso e humanitario mistér de desobrigar pessoas serias, como eu, Excellentissimo Senhor, e que, depois da chegada de Suas Excellencias, se viram na dura necessidade de, ou desviar para outra applicação a sua potencia vital, como, por exemplo, para o estudo de construcções, principiando com a rudimentar disposição das traves nos tectos, ou a curtir... as suas maguas pelas muralhas, entregando, assim, o organismo á terrivel atonia d’essa perigosa enfermidade, que a todos ataca na puberdade. (Vossa Excellencia tambem devia dar o seu contingente...)
Ora, o tal monopolio, Excellentissimo Senhor, tornou-se muito funesto á povoação. Foi, até, na epocha d’elle, e por causa d’elle, que aconteceu aquella grande desgraça ao sr. Abilio Araujo...
Eu sou muito amigo de Vossa Excellencia e Vossa Excellencia tambem é meu amigo. Sou d’aquelles que, no dia do Anno Novo, apanham o seu quinhão nas boas festas que Vossa Excellencia, lá das alturas, se digna dar, como os antigos senhores feudaes, á burguezada e aos paradas-velhas, cá da terra.
Depois, venero Vossa Excellencia, porque é um homem energico, que tem, como o povo diz (e realmente tem) cabellinhos na venta (com o devido respeito).
Aquella felicissima resposta, que Vossa Excellencia deu ao Padre Magalhães, quando elle foi pedir para a Semana Santa com o innocente sr. Joaquim e com o ingenuo Abbade das Gandras, foi fulminante de espirito; foi á Pombal, á Richelieu, á Pitt, á Bismarck, á Duque d’Olivares; teve a potencia explosiva d’uma bomba á Orsini, ou d’um petardo nihilista, preparado chimicamente, com os mais poderosos elementos endothermicos.
Disse-se, por ahi, que Vossa Excellencia procedera mal; porque, se queria dar carambola ao Noticioso, que lhe chamára General não sei de que, não devia escolher para bola vermelha um homem que ia de preto, que tinha entrado na sua sala de visitas, onde, até a pretalhada do Bonga, que pouco sabe de hospitalidade, recebe e trata bem a gente.
Accusaram Vossa Excellencia de ter faltado, n’essa occasião, aos mais rudimentares preceitos da delicadeza e até se asseverou, fazendo justiça ao caracter de Vossa Excellencia, que a tal resposta foi soprada ao ouvido, por Sua Excellencia, o Senhor Vice.
Eu não sou d’essa opinião. Vossa Excellencia respondeu e respondeu muito bem. N’isto de militanças praceiras, não ha attenções, nem hospitalidades, nem sala de visitas, ha... o regulamento do Conde de Lippe! Quem o não acatar... leva a sua conta, e assim é que deve ser.