Não tendo aqui, presente, a lucida exposição do eminente sabio, limito-me a reproduzir, e certamente d’uma maneira deficiente e incompleta—attendendo á escassez dos meus conhecimentos scientificos—a theoria, em que Charcot baseou a explicação do estranho phenomeno.
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V. Ex.ª sabe, como a moderna Sciencia explica, na Acustica, a producção e a propagação do som.
«O som é o resultado d’um movimento vibratorio, communicado á materia ponderavel»—eis a base da theoria, hoje adoptada e conhecida por «theoria das ondulações».
Conhece, tambem, o mechanismo da voz humana. A voz provem da acção do ar nas cordas vocaes. O ar, que sahe dos pulmões, produz, n’essas cordas, vibrações, mais ou menos rapidas, que transmittindo-se ás paredes da larynge se tornam sonoras, e que, depois, a acção combinada da lingua, das maxillas e dos labios, altera modifica e articula.
Conhecido é, tambem, o mechanismo da audição. As vibrações executadas pelas cordas e transmittidas, em ondas, ao ar exterior, chegam-nos ao pavilhão do ouvido e vêm, pelo tubo auditivo, actuar na membrana do tympano. Seguem, depois, até ao ouvido medio, no ar n’elle contido, e, pela cadeia do estribo, do martello, da bigorna e do osso lenticular, reproduzem-se, ainda, nas membranas das janellas redonda e oval, communicam-se ao liquido, que existe no ouvido interno e d’alli, pelos filetes do nervo acustico, ao cerebro.[18]
A potencia das vibrações, o deslocamento, mais ou menos violento, das ondas sonoras depende, portanto, alem d’outras circumstancias, da força com que os pulmões fornecem o ar, e da maior ou menor vibratilidade das cordas vocaes. Por isso, vêmos individuos com voz forte e penetrante, como o sr. Barros, e outros, com voz debil e sumida, como o sr. Nunes de Azevedo, que difficilmente se percebe.
Ora succedia que, por uma disposição especial dos pulmões, da larynge e das cordas vocaes, aquella força expulsiva do ar e a vibratilidade das cordas, existiam nos dois individuos em grau extraordinario e ainda desconhecido para os mais eminentes physiologistas. D’essa disposição especial resultava, tambem, que a voz, já potente e forte, obtinha, ainda, consideravel augmento de intensidade com a reflexão nas paredes da larynge, attingindo o que em Acustica se denomina resonancia.
Quando as vozes não encontravam obstaculo, pouco se conhecia esse augmento de intensidade, porque, então, se perdiam na atmosphera; mas, se as ondas deslocadas por cada uma se encontravam, era tal a violencia do choque e das vibrações, d’elle provenientes, que só a poderemos comparar, nos grandes phenomenos da Natureza, á rapidez e violencia das ondas do Oceano quando, açoitadas por furioso vendaval, avançam, chocam-se, equilibram-se com medonha expansão de força, recuam para formar novo salto, até que uma perde a força resistente, e a outra vence, esmigalhando, com espantoso ruido, tudo o que se oppõe á sua passagem.
Este effeito destruidor soffriam todas as peças dos apparelhos auditivos, que o circulo da primeira projecção podia abranger.