Este beaterio é muito casto e excessivamente pudibundo.
Na egreja de S. Estevão ha uma Virgem do Leite, que, se não é, realmente, uma preciosidade artistica, é, com certeza, a melhor tela que existe em Valença, não falando—já se vê—n’aquellas caras de malagueta e colorau, todas com a mesma fórma e feitio, que o sr. Julião exporta, mensalmente, para as salas nobres dos hospitaes minhotos, a soberano por caveira, com dez por cento de abatimento, por duzia.
Pois o beaterio escandalizou-se com a nudez dos peitos da imagem, isto é, repugnou-lhe que se visse o que na mulher representa a sua missão mais nobre, mais elevada e mais santa—a maternidade. E a instancias d’esses respeitaveis camafeus, muito castos e muito pudibundos, mas que nunca faltam á Rosinha Ferreira, quando ella representa; e mandam logo de manhã comprar bilhete, e dão pançadinhas com riso, e coram (não de pudôr) e se apimentam, e se agitam, nervosas, na cadeira, quando Lili conta as suas coisas—a instancias e reclamações d’essa gente, repito, uma auctoridade ecclesiastica, que eu agora respeito, porque já não está entre vivos, mandou, por um caiador de Arão, borrar os peitos da imagem!!!
Isto, minhas senhoras e senhores, em pleno seculo XIX, n’uma terra que tem dois jornaes, correspondentes varios de ditos, representantes de Sua Magestade El-Rei, Vigarios geraes e não geraes, Conegos Presidentes, e não Presidentes, Capellães, etc., etc.! E entre toda essa gente, que sabe ler e escrever, segundo se diz, não houve um unico homem que corresse a pontapés o cafre de Arão, reproduzindo-lhe com a biqueira da bota, ahi pelas alturas do coccyx, os borrões com que profanou a imagem!
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O beaterio communga quinzenalmente e confessa-se duas vezes por semana, a padres velhos, surdos e rançosos.
Padres novos são o diabo!
Até os Patriarchas fazem das suas... Ainda não ha muito tempo, que os apparelhos de Morse, de Bandot, de Hugues e os telephones da Hespanha e França, não designavam outras palavras, alem de: as botas?
José Luciano perguntava a Vega d’Armijo: as botas? Vega d’Armijo perguntava a Carnot: as botas? Carnot reperguntava ao Luciano: as botas?