—Não me interrompas, Zina!... Perdoáste-me, bem sei:{182} e ha já muito tempo, talvez, mas avaliáste-me e comprehendeste o que eu era, e é isso que me atormenta. Sou indigno do teu amor, Zina! Fôste sempre leal e generosa; fôste ter com tua mãe e declaraste-lhe o teu firme desejo de casar commigo, ou com mais ninguem: e cumpriste a palavra dada, pois que para ti, palavra e acção são uma e a mesma coisa! Ao passo que eu,... eu! Não sabes, eu até hoje não tinha comprehendido, sequer, a extensão toda do sacrificio que fazias em ser minha mulher. E lembrar-me eu de que tu, commigo, te arriscavas a morrer de fome! Mas se a mim parecia-me que nada ha n'este mundo que se compare á honra de ser esposa de um grande poeta... sem nome,... é certo! Não quiz intender o motivo que alegavas para retardar o nosso casamento. Tu a padeceres por minha causa, eu a martirizar-te, a exprobar-te, a desprezar-te... até que por fim te ameacei com aquella carta... Eu, n'esse instante, nem sequer cheguei a ser um miseravel, mas sim um ente abjecto, e nada mais! Ah! nem quero pensar até onde iria o teu desprezo! Não, não! É bom que eu morra! Obrigado por não haveres querido pertencer-me! Iriam correndo os annos, e quem sabe se eu afinal não viria a ver em ti um tropêço ao meu porvir. Sim, antes assim! E agora, o amargor das minhas lagrimas, sequer ao menos, purificou este meu coração. Ah! Zina! Concede-me um quinhão no teu amor, tão sómente, no teu amor de algum dia!—N'esta hora derradeira, sequer ao menos! Sou indigno do teu amor, bem o sei! mas... mas... mas... ai meu anjo!

E a Zina, desfeita em pranto, a escutar. Tentava interrompêl-o, elle porém, ia proseguindo... supplice, a gesticular,{183} e aquella sua voz debil... abafada e sibilante,... fazia mal á Zina...

—Não me tiveras tu encontrado, e não me terias amado, e não morrias... disse a Zina. Ah! Oxalá nunca nos tivessemos encontrado!

—Não, meu amor, não! Não te estejas arguindo da minha morte! A culpa foi minha, e só minha! O amor proprio... o romantismo!... Nunca te contaram, Zina, a minha estupida historia? Existiu aqui, ha três annos, um prisioneiro, um miseravel, um ladrão. Mas no dia em que chegou o castigo, faltou-lhe o animo. Sabendo que não levam a justiçar um enfermo, alcançou uma garrafa de vinho, deitou-lhe de infusão tabaco e enguliu-o. Tomaram-n'o uns vomitos que duraram tanto que principiou a escarrar sangue e deu cabo dos pulmões. Levaram-n'o para o hospital e, d'ali a dias, morreu tisico. Pois bem! Occorreu-me á memoria esse ladrão, no dia em que se deu aquelle caso da carta... E resolvi acabar commigo da mesma maneira. E por que foi que eu, de proposito, escolhi a tisica? Por que foi que me não enforquei ou me não deitei a afogar? Seria porque me assustasse uma morte tão abrupta? Talvez; mas a mim quer-me parecer que concorreriam, e não pouco, para isso, as minhas ideias romanescas. Não me largava este pensamento: Que morte tão bella não será a minha, estirado como agora o estou, n'uma cama, com o estertor da tisica!... E tu, ao pé de mim, a lamentar-me, e a padecer com a ideia de que eras talvez a causa da minha doença! E eu a ver-te entrar por ali dentro, arrependida, ajoelhar á beira do meu leito... E eu a perdoar-te e a expirar nos teus braços!... Toleima, Zina, pois não era?{184}

—Esquece-te de tudo isso, nem me tornes a falar das tuas culpas, que tu estás a exaggerar; lembrêmo-nos dos momentos ditosos, dos dias de ventura.

—Não m'o perdôo, meu amor, e é por isso que falo a semelhante respeito. Ha já dezoito mêses que te não via. Queria alliviar este meu coração! Durante esse tempo todo, eu para aqui, sósinho, e não houve um só instante, em que eu não pensasse em ti, meu amor. O que não desejaria eu fazer para reconquistar a tua estima? Até ao derradeiro instante não acreditei que morria; não me entreguei á cama desde logo, andei a pé, por muito tempo, com o peito escangalhado. E que sonhos tão ridiculos! Ás vezes suppunha ser um grande poeta e em vesperas de publicar um poema como ainda não tinha apparecido outro egual n'este mundo, que ninguem tivera genio para o escrever. E eu a pensar que me iriam n'elle todos os meus sentimentos, a minha alma, toda inteira, e que, d'este modo, me acharia sempre a teu lado, e que qualquer que fosse o sitio em que te encontrasses, os meus versos ir-te-hiam recordar a minha existencia, e o meu sonho unico era acreditar que tu em conclusão poderias dizer: "Não, elle a final não é tão mau como eu o suppunha". Toleima, Zina, toleima, pois não é?

—Não, não, Vassia, exclamava a Zina.

E debruçada sobre o peito d'elle, pôz-se-lhe aos beijos ás mãos.

—E o ciume! Como me atormentava o ciume durante esse tempo, todo! Eu, se tivesse ouvido falar no teu casamento, caía morto, redondamente!... E eu a vigiar-te, a espreitar-te... Era ella quem lá ia (apontando para a mãe).{185} Tu nunca tiveste amor ao Mozgliakov, pois não é verdade? Ai! meu anjo! Lembrar-te-has tu de mim quando eu já não fôr d'este mundo? Lembras, sim, que eu bem sei! Mas os annos hão de ir passando, arrefecer-te-ha esse teu coração, o inverno ir-te-ha tomando posse da alma, e olvidar-me-has, Zina!...

—Não, não, nunca! E nunca me hei-de casar, tem a certeza!... Foste o meu primeiro amor e serás o derradeiro.