Alli, e só alli, poderia ter sido de alguma utilidade. Maria Alexandrovna fez, pois, muito bem em exilar Aphanassi Matveich para a aldeia de cento e vinte almas que ella possuia a tres verstas de Mordassov. E de caminho, digamos que a dita propriedade representava a totalidade dos bens facultando a Maria Alexandrovna o custear tão bem, e com tamanho estadão, a sua casa. Facil foi pois o perceberem que havia supportado Aphanassi Matveich unica e exclusivamente por causa do seu cargo, dos respectivos ordenados{9} e... e ainda de uns certos emolumentosinhos. Agora, que, velho, já nem representava ordenados nem emolumentos, não seria de justiça affastá-lo na qualidade de inutil trambolho?
Aphanassi Matveich leva no campo uma vida agradabilissima. Fiz-lhe uma visita e passei com elle uma hora encantadora. Ensaia ao espelho as gravatas brancas, engraxa as proprias botas, não por necessidade, mas sim por amor da arte, porque gosta de ver as botas a luzir muito. Toma chá tres vezes ao dia, vae a miudo ao banho e não se rala com coisa nenhuma...
Estão lembrados d'aquella nojenta historia, ha dezoito mêses, a proposito da Zinaida Aphanassièvna, filha unica, de Maria Alexandrovna e de Aphanassi Matveich? Zinaida é uma beldade, e uma menina muito bem educada, de mais a mais; mas tem vinte e trez annos e ainda está solteira. Uma das principaes causas a que atribuem o celibato da Zina, é o boato vago da estrambotica ligação que dizem haver tido, ha exactamente dezoito mêses, com um réles utchitel[[1]]—boato que ainda se não desvaneceu.—Citam uma missiva amorosa escrita pela Zina e que dizem ter corrido Mordassov de um extremo ao outro. Mas, por favor, não me dirão, leram a tal epistola? Não houve em Mordassov pessoa que a não visse. E então! onde pára ella actualmente? Toda a gente ouviu falar nella, mas quem foi que a viu? Eu, da minha parte, ainda não encontrei uma só pessoa que a tenha visto com seus proprios olhos.{10}
Alluda alguem á tal epistola na presença de Maria Alexandrovna e aposto desde já que ella não perceberá sequer esse alguem. Mas supponhamos que tenha havido o que quer que fosse de verdade em semelhante atoarda, e que a Zina haja escrito a decantada epistola, (effectivamente, estou convencido de que a escreveu): admirem então a habilidade de Maria Alexandrovna.
Como se havia de atabafar caso tão escandaloso?—Pois bem, procurem, nem vestigios, prova, que é della? Maria Alexandrovna nem sequer se digna tomar conhecimento de calumnia tão soez, e comtudo, Deus sabe o trabalho que lhe custou conservar intacta a honra da filha unica! Que a Zina não tenha ainda casado, isso percebe-se, de mais, até: onde iria ella por aqui encontrar noivo? A Zina só pode casar com um principe reinante! Já alguem viu mais peregrina formosura? É soberba, lá isso é... Dizem que Mozgliakov a pedira em casamento, mas semelhante consorcio jámais se effectuará. Quem vem a ser esse tal Mozgliakov? É môço, assás bem parecido, elegante, peterburguense, proprietario de cento e cincoenta almas livres de hypotheca. Mas não fura paredes! Leviano, tagarélla, apaixonado pelas novas ideias... E que representarão cento e cincoenta almas com ideias novas? O casamento nunca se realizará.
Quanto acaba de ler o amavel leitor foi escrito, ha cinco mêses, unicamente por admiração. Devo convir em que nutro uma tal ou qual sympathia por Maria Alexandrovna. Quizera escrever o panegyrico de tão magnifica dama sob a forma de uma carta dirigida a um amigo, a exemplo d'aquellas que outrora publicavam as revistas, n'esses bons{11} tempos que já lá vão, e que, louvôres a Deus! não voltam cá outra vez!
Mas se não tenho um unico amigo, e, graças á incuravel timidez que de mim se apodera assim que se trata de litteratura, a minha obra ficou na gaveta na qualidade de tentame sem seguimento.
Cinco mezes eram pois decorridos, quando em Mordassov se deu um acontecimento extraordinario.
Um dia, de madrugada, eis que chega o principe K... e vae hospedar-se em casa de Maria Alexandrovna.
As consequencias d'este acontecimento são incalculaveis. O principe passou apenas trez dias em Mordassov. Mas esses trez dias deixaram recordações fataes e inexpungiveis. Direi mais: o principe foi causa de uma verdadeira revolução n'esta nossa cidade. A narrativa da alludida revolução virá a ser, certamente, a pagina mais importante da historia de Mordassov. E é essa pagina que eu, após innumeras hesitações, me resolvi a offerecer, sob forma litteraria ao criterio do respeitavel publico.