Já se acham illuminadas as janélas.

—Onde está o manequim? clama Maria Alexandrovna caíndo como uma trovoada, no vestibulo. Que faz aqui esta toalha? Ah! estava aborrecido, e ainda não saiu do banho! E sempre n'aquelle fadario do chá! E então! Para que estarás tu para ahi a esbogalhar esses olhos, meu idiota incuravel? Por que é que se não corta esse cabello?!

Grichka! Grichka! Por que é que não cortaste o cabello ao barine conforme te dei ordem, a semana passada?

Maria Alexandrovna premeditára operar em casa de Aphanassi Matveich uma entrada menos violenta. Mas ao vêl-o entretido a sorver o seu cházinho, com toda a sua pachorra, não foi senhora de sopitar a indignação. Para ella, tamanhos cuidados, e para elle, para aquelle ente inutil, aquella paz podre! Semelhante contraste chóca de modo cruel Maria Alexandrovna. E todavia, o manequim, ou para nos expressarmos com mais urbanidade, aquelle a quem applicam o ápodo, está sentado em frente do samovár; inerte, bôcca e olhos escancarados, petrificado, quasi, pela apparição da consorte. O adormecido vulto do Grichka assoma ao vestibulo. O Grichka tosqueneja os olhos durante toda esta scena.

—Se elle não deixa... E ahi esta porque é que o não{121} fiz, profere em voz encatarroada e socarrôna. Peguei na tesoira para ahi umas dez vezes, e a dizer-lhe: A barinia não tarda por ahi e apanhamos ambos a nossa conta!—E vae elle e diz-me:—Não—espera ahi: quéro que me frizes no domingo; e é preciso para isso que o cabello tenha comprimento.

—Muito me contas: Com que então elle, friza-se? Inventaste então essa obra dos frizados, assim que eu virei costas?

Que termos são esses? Cuidas talvez que embellezas assim essa tua cabeça de idiota? Santo Deus! Que desordem que por aqui vae! E que cheiro! Não me dirás, miseravel, d'onde provém semelhante cheiro? vociféra a consorte a crescer de mais em mais ameaçadora para o innocente e assarapantado de todo Aphanassi Matveich.

—Ah... mi-minha mãezinha, balbucía o esposo sem se erguer e desfechando sobre o seu generalissimo uns olhos assustados e suplices, mi... mi... minha mãezi...

—Quantas vezes não tenho eu tentado encaixar-te n'essa cabeça de burro que não sou tua mãezinha, pedaço de pygmeu? Como te atreves a tratar por semelhante nome uma senhora nobre cujo logar é na alta sociedade, e não ao pé de um aguadeiro da tua laia?

—Mas, Maria Alexandrovna, tu com tudo isso não deixas de ser minha mulher em face das leis! e eu... estou-te falando... na qualidade de marido! Objecta Aphanassi Matveich, levando a um tempo a mão aos cabellos para os defender.