—E esta! Com a senhora é sempre assim, Maria Alexandrovna! berra ella estrugindo a tudo: isto será modo de proceder para commigo?!... Não se assuste, vim aqui de corrida, nem me sento, sequer. Vim de proposito para saber se é verdade aquillo que me disseram. A senhora a dar bailes, banquetes e n'este meio tempo, a Sofia Petrovna para ali a um canto, em casa, a concertar as meias! A senhora a ajuntar em sua casa a cidade em peso, menos a mim! Commigo, d'antes, tudo era: minha amiguinha, meu anjo,—quando lhe conveio saber o enredo que a Natalia Dmitrievna a seu respeito e do principe andava a tecer,{150} e vae senão quando, a Natalia Dmitrievna, de quem a senhora—hoje mesmo—como ella aliás diz da senhora—disse cobras e lagartos—está para ahi amesendada na sua soirée! Não se assuste, Natalia Dmitrievna, passo muito bem sem o tal seu chocolate de dois kopeks cada pau. Eu, quando me appetece beber seja o que fôr, lá em minha casa não falta, graças a Deus; tomára a senhora!
—Bem se vê! observa a Natalia Dmitrievna.
—Ora vamos, Sofia Petrovna, exclama Maria Alexandrovna, afogueada de despeito, que é que tem? Socegue!
—Não lhe dê cuidado a minha pessoa, Maria Alexandrovna, estou sciente de tudo, de tudo! guincha com a voz de pipia a Sofia Petrovna, á qual fazem cêrco as visitantes, que não cabem em si de contentes com o escandolozinho. Estou informada de tudo e foi lá a sua Nastassia quem m'o pespegou, tim-tim por tim-tim! A senhora pregou uma camoéca ao tal principe e tanto apertou com elle, até que lhe pediu em casamento a sua filha—que já nem tem quem a queira! E a senhora a ver-se já toda emproada, a julgar-se uma duquêsa, com manto e tudo.—Pfu-u! Não cuide que me mete mêdo! Tenho visto muitas duquêsas e aqui onde me vê sou coronela! Ah! A senhora então nem sequer me convidou para a bôda!—Cá por mim, escarro-lhe em cima!—Tenho muito com quem me dar, tomára a senhora. O ponto está que eu queira! Vá ouvindo: Hontem jantei eu com a princesa Zalikhvatskaia, e por signal que até o commissario principal, o Kuropchkine, me pediu em casamento. Estou-me ninando para o tal seu salsifrê.
Pfu-u! Arreda!
—Escute, Sofia Petrovna, responde Maria Alexandrovna{151} fora de si, fique sabendo que assim ninguem se atreve a pôr pé numa casa decente;... e n'esse seu estado, de mais a mais!... Se me não favorece desde já com a sua ausencia... obriga-me a appellar para...
—Bem sei, chama os criados para me pôrem no olho da rua? Não lhe dê cuidado, sei muito bem o caminho. Adeuzinho! Case lá a sua filha com quem muito bem quiser. E a senhora, Natalia Dmitrievna, escusa de se rir á minha custa: eu cá, ao tal seu chocolate, só se lhe cuspir dentro! Ella convidava-me lá! Isso sim! Não, que lá em minha casa não ha quem danse o kazatchok diante de principes! E lá a senhora, tambem, Anna Nikolaievna, de que é que se está a rir? O seu Suchilov partiu indagora uma perna: e lá o levaram em charóla para casa—ha de-lhe fazer falta, já se vê! Pfu-u! E a senhora, Felissata Mikhailovna, se não avisa aquelle calcanhar rachado do seu Matvehka que, se torna a consentir que a sua vacca esteja todo o santo dia aos bérros debaixo da minha janéla, parto-lhe as pernas, ao tal seu Matevchka! Adeuzinho, Maria Alexandrovna! A bom intendedor, o resto já se sabe! Saúde!
Pfu-u!
Some-se a Sofia Petrovna. Desata toda a gente á gargalhada. Maria Alexandrovna ficou entupida de todo.
—Estou em dizer que beberia a sua pinga, diz a Natalia Dmitrievna, muito de mansinho.