—Vou começar.

Os enredos, as bulhas, as trapaças
Os enganos, os medos, os temores
Os ardis, as astucias, as negaças
Os agrados, os risos, os amores;
As trombas, os focinhos, as caraças
As furias, os raivassos, e os rancores
Que houve em certa eleição com forte espanto
Darão materia a nunca ouvido canto.

E segue a sonóra n’este tom, narrando os episodios da eleição da abbadessa, no então revoltoso convento de Odivellas, ninho de endiabradas freiras. Este frei Simão tem muitas peças poeticas algumas muito aproveitaveis para o conhecimento de minucias e particularidades da época.


Dias depois de um passeio a Loures e á quinta do Correio-Mór, appareceu-me um cavalheiro d’aquelles sitios, com quem eu cavaqueara, e apresentou-me uma porção de papeis velhos, manuscriptos, que me disse ter encontrado havia annos n’um gavetão da copa monumental do palacio. Percorri os papeis; pouco achei de curioso ou interessante. Entre elles vinham poesias do seculo XVIII, alguns sonetos de anniversarios, dirigidos a pessoas da familia Matta; e uma descripção de lauto banquete no mosteiro dos Jeronymos de Belem, que me pareceu bom documento da época, e singular peça poetica. Por isto a transcrevo em parte. Nos papeis não encontrei nome do auctor. Depois achei n’um cancioneiro a mesma poesia attribuida a frei Simão Antonio de Santa Catharina, e até com a mesma nota pittoresca de ter sido lida a el-rei D. João V, na estrada de Pedrouços.

Torres Vedras


Notas d’arte e archeologia

(1906)

Paineis antigos em Torres Vedras