Domingo, 17 de julho.—Festa a Nossa Senhora do Monte do Carmo, no convento de Santa Thereza, com os padres inglezinhos; foi ás 10 horas da manhã. Cantou a missa o rev.ᵒ P. Louro, capellão das freiras, e professor do Collegio Militar.

O côro dos inglezinhos era acompanhado a orgão. Executaram muito bem o seu solemne cantochão.


Na chan da quinta ha um recanto isolado, silencioso; junto do alto muro velho da cêrca das freiras está um poço d’onde se tira agua por uma picota; dois robustos cyprestes, figueiras de negros troncos tortuosos espalham fechadas sombras; além do recanto a terra do trigo, a vinha, as oliveiras; parece uma paizagem grega; o olhar de Homero não a estranharia.

Estive hoje a ler ali um trecho de Ruy de Pina (o silencio do logar e a sombra do arvoredo ainda m’o tornaram mais frisante) que me falla de Carnide.

Trata-se do amargo desastre de Tanger, de como ficou preso dos mouros o infante santo, pobre D. Fernando, filho de D. João I.

—E o infante D. Pedro, como sentiu o coração d’el-rei em algum mais socego, lhe pediu licença para trigosamente, e o melhor que pudesse, de Lisboa socorrer a seus irmãos, e a el-rei aprouve, e se veio logo apóz elle á aldêa de Carnide junto com Santa Maria da Luz, porque a cidade estava perigosa de pestilencia. Mas porque ordenou que o socorro fosse com muita gente e grande poder, em se aviando para isso as cousas necessarias, chegaram em tanto a Lisboa dos que vinham de Tanger, muitos navios que certificaram o caso como finalmente passara, de que el-rei foi logo avisado, e certamente foi mui aspero de ouvir, que o infante seu irmão ficava em poder de mouros; mas por saber que a mais da sua gente era em salvo, deu por isso muitas graças a Deus, e como rei virtuoso, humano e agradecido, deteve-se naquella aldêa, para vêr e agasalhar os que vinham do cerco, dos quaes muitos, ao tempo que iam fazer-lhe reverencia, em disformes semelhanças e tristes vestidos, que para isso de industria vestiam, e com palavras á desaventura conformes, se lhe mostravam, e delles fingiam ser muito mais damnificados do que na verdade o foram, com fundamento de carregarem mais na obrigação para o feito de seus requerimentos, que alguns logo faziam e outros esperavam fazer, de que el-rei recebia publica dôr e tristeza.

Mas a estes foi mui contrario o nobre e valente cavalleiro Alvaro Vaz d’Almada, capitão-mór do Mar que como quer que no cêrco de Tanger de sua fazenda perdesse muita, e da honra por merecimentos d’armas não ganhasse pouca como chegou a Lisboa, antes de ir fallar a el-rei, logo de finos pannos e alegres côres se vestiu, a si e a todos os seus, e com sua barba feita e o rosto cheio de alegria, chegou a Carnide, onde o rei andava passeiando fóra das casas, e com elle o infante D. Pedro, e depois de lhe beijar as mãos e lhe dizer palavras de grande conforto, el-rei o recebeu mui graciosamente, e louvou muito sua ida naquella maneira, que não sómente lhe apontou cousas e razões, para não dever por aquelle caso ter nojo nem tristeza, mas ainda que por elle devia ser mui alegre e contente, estimando em nada o captiveiro do Infante seu irmão, que era um homem só e mortal, em que havia muitos remedios, em respeito da grande fama que naquelle feito em seu nome se ganhára aconselhando-lhe mais o repique e alvoroço dos sinos, para honra e prazer dos vivos, que o dobrar d’elles, que ouvia, por tristeza e pelas almas dos mortos; pelo que el-rei começou a mostrar que aquelle era o primeiro descanço que seu coração recebia...

(Cap. 36 da Chronica de D. Duarte, de Ruy de Pina.—Ineditos da Acad. Tomo 1.ᵒ, pag. 172 e 173).

Onde seria o paço de D. Duarte?... não sei. Na rua do Machado ha ainda cunhaes de grossa silharia velha, restos seguros de mui antiga construcção. Por aquelles quintaes ainda se encontram vestigios antigos, não são sufficientes porém para se affirmar a existencia ali de solar ou castello. O velho paço de Carnide desappareceu. Ficou a narrativa de Ruy de Pina. Resalta ahi a figura de Alvaro Vaz d’Almada, n’uma luz e n’um ensinamento incomparavel. Coragem, para encarar perigos e reparar desastres; um homem não se prostra perante a dôr, soffre; o coração abafa de soluços, mas lucta-se sempre, engole-se a amargura, soffre-se a ferida, suga-se a esponja de fel, mas o espirito não se perturba, o animo esforça-se por não perder a sua energia.