No cruzeiro, á direita, ao canto, ha uma porta encimada por um brazão; abre para a capellinha onde está a imagem do Senhor Jesus dos Passos. Mas o pequeno e rico edificio é dedicado a S. Gonçalo de Amarante. Uma inscripção latina declara que em 1685 o bispo fr. Manuel Pereira mandou fazer a capella. É de muito e apurado trabalho, em lindos marmores. Estatuetas de finissimo Carrara povoam os nichos. Preside S. Gonçalo de Amarante tendo aos lados a S.ᵃ do Rosario, S. José, S.ᵃ Appollonia, S. Thereza, S. João de Deus, S. Felippe, S. Domingos e S. Thomaz d’Aquino.

As columnas salomonicas aos lados de S. Gonçalo são de pedra fina da Arrabida de um trabalho apuradissimo.

Parecem-me de origem italiana estas lindas estatuetas em marmore de Carrara, delicadamente esculpidas, com a maneira usada na época.

O satyro da fonte de S. Domingos de Bemfica

A estatua do satyro conserva-se na situação em que fr. Luis de Sousa a conheceu.

Entrando no claustro d’aquelle extraordinario convento de S. Domingos de Bemfica, toma-se a porta, ao canto, que diz para a fonte e horta. Desce-se uma breve escada, entra-se n’um pequeno recinto, com assentos de pedra; ao fundo a fonte rasteira; lá está o satyro e uns pedaços de marmore com um verso latino. O muro que separa a horta do recinto da fonte é mais recente.

Felizmente eu tirei o desenho do satyro ha tempos; modernamente houve obras no edificio, e um alvanéo mais gracioso divertiu-se a lançar cal sobre a pobre estatua.

Eu estou convencido que este satyro é romano. Fr. Luis de Sousa já o conheceu assim, n’aquella posição; ora em tal posição a estatua não podia estragar-se da maneira que se vê; a superficie está desigual; ha pontos em que se conserva o primitivo estado, na parte superior do peito, nas madeixas das coxas; em outros sitios a superficie está gasta, frusta, ou por longo attrito ou por inhumação prolongada. As mãos foram arruinadas por causa da adaptação de torneiras, obra provavel dos frades; porque primitivamente a agua não sahia de taça ou urna que o satyro tivesse nas mãos; sahia do outro sitio; a estatua é pagan e bem pagan.

Apesar de frusta ainda a physionomia é notavel, e é bem propria a phrase de fr. Luis de Sousa, simplicidade montanheza; ha estatuas de Pan com aquella attitude e expressão.

Trabalho da renascença não me parece, nem estaria assim estragado em tempo do celebre chronista; gothico, romanico, impossivel; nunca trabalharam assim em taes tempos. Porque a estatua tem expressão, ha observação anatomica nos musculos, nos hombros, as claviculas bem marcadas, as madeixas elegantes.