Estavamos, é verdade surprehendidos, mas não vencidos.

A duzentos passos atraz das muralhas eleva-se o antigo recinto do Aurelio. Ordenei que o fortificassem o melhor possivel. Tinha posto de parte a idéa de um assalto, mas queria defender o terreno passo a passo.

Uma bateria de sete peças foi collocada no bastião no 5, e posta, por nossos trabalhos, a cuberto do fogo dos francezes.

Começou a funccionar na manhã de 23, e secundada pela bateria de Santo-Aleixo e a de São Pedro in Montorio, cruzou de tal fórma seus fogos sobre a brecha que os francezes foram obrigados a abandonar os seus trabalhos. O fim da engenharia franceza era estabelecer sobre a cortina 6 e 7 uma bateria de canhões, apenas estivesse senhor da brecha. O designio era impedir este estabelecimento.

Cobri os incriveis exforços dos francezes e a nossa opposição obstinada. Na noite de 23 estabeleceram elles a sua bateria. Na manhã de 24 esmagados pela nossa artilharia foram obrigados a fechar as suas setteiras. Pensaram então em elevar duas novas baterias sobre os bastiões 6 e 7, d'onde podiam extinguir a bateria de S. Pedro in Montorio defendida pela minha legião.

Esperando, o general Oudinot, para mostrar, como o havia dito em seus boletins o culto que tributava á cidade, mormente desde 24, fazia lançar bombas sobre todos os bairros. Era sobre tudo durante a noite que elle empregava este meio de terror. Muitas cahiram no bairro Transteverino, muitas no Capitolio, algumas sobre o Quirinal, sobre a praça de Hespanha, e no Corso. Uma d'estas bombas cahiu sobre o templo que cobre o Hercules de Canova; mas a cupola resistiu. Uma outra estalou no palacio Spada, e damnificou a famosa pintura da Aurora de Guido Reni. Uma outra, mais impia ainda quebrou o capitel d'uma columna do maravilhoso templosinho da fortuna viril, obra prima respeitada pelos seculos.

O triumvirato offereceu ás familias populares, cujas casas se achavam destruidas, um asylo no palacio Corsini.

O animo do povo romano n'estes dias de provação foi digno dos antigos tempos. Em quanto que á noite perseguido pela saraiva dos projectís que despedaçava os telhados de suas casas, as mães fugiam levando seus filhos apertados contra o peito, em quanto que os ares atroavam de gritos e lamentações, nem uma só voz fallava em se render.

No meio de todos estes alaridos um só grito mofador se elevava quando alguma balla de artilharia ou algum obuz destruia uma parede de casa, e era:

—Benção do Papa!